Articulistas

De olho espichado


| Tempo de leitura: 2 min

O governo federal administra o país com os dois olhos. Um deles, possivelmente o direito, está grudado na atual conjuntura, na busca do se poderia chamar de “colchão de credibilidade”. O outro não desgruda das eleições municipais do próximo ano. Traduzindo em miúdos: o presidente da República precisa porque precisa provar ao mercado que o seu presente é a negação plena do passado. Por isso, arrocha mais que o necessário. Quem paga a conta salgada é a sociedade como um todo e, em especial, os mais carentes, imensa maioria da população.

Os números falam por si. Em quatro meses, o governo federal gastou apenas 0,4% dos recursos anuais previstos na lei orçamentária para investimentos, aumentou a folha de pagamentos dos servidores federais em apenas 1% e elevou o salário mínimo em menos de 2% acima da inflação. Fez mais: mantém a taxa básica de juros em níveis estratosféricos sem que haja necessidade (visto que não há hipótese de se ter um recrudescimento dos preços por excesso de demanda) e elevou a meta de superávit primário.

Entre especialistas é dado como certo o fato de que, no segundo semestre, o governo promoverá uma drástica redução da taxa de juros. O que, evidentemente, é bom. O problema é que a criação do “colchão de credibilidade” a que nos referimos tem um preço alto: o arrocho salarial e a falta de investimentos na área social. E isso ocorre num momento em que os níveis de desemprego são elevados, o trabalho informal ganha espaço cada vez maior e a renda média das famílias é menor que a de um ano atrás.

Convém registrar que hoje os indicadores econômicos são favoráveis. O real se valorizou, o risco-país diminuiu etc. Tais resultados, no entanto, devem-se mais ao fato de que, durante a campanha eleitoral, os índices foram às alturas por conta das bravatas históricas do partido. Seu recuo, portanto, era inevitável, visto que a elevação verificada no ano passado era artificial. Cairiam com qualquer governo, desde que ele não fizesse barbeiragens primárias.

A bem da verdade, nesse ponto, o governo Lula merece reconhecimento. Depois de dizer não a todas as propostas de reforma apresentadas durante o governo Fernando Henrique Cardoso, rendeu-se à evidência óbvia de que para governar é preciso mais que vontade política. É preciso saber fazer contas e ser responsável. (O autor, Walter Feldman, é médico, deputado federal pelo PSDB-SP e membro da Comissão Especial de Reforma Tributária da Câmara Federal dep.walterfeldman@camara.gov.br)

Comentários

Comentários