Bairros

Moradias são criativas e inusitadas

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

A criatividade dos “arquitetos” escondidos entre os barracos e casas populares impressiona os visitantes dos bairros de periferia. Além disso, os materiais são utilizados de forma inusitada.

“Toda vez que eu visito a favela eu aprendo alguma coisa. Não há preconceito na combinação materiais. Há soluções geniais na busca de economia”, revela o arquiteto José Xaides de Sampaio Alves, que é professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo (Daup) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Ele afirma que, muitas vezes, os profissionais da área não conhecem determinadas potencialidades dos materiais que são exploradas pelas pessoas mais pobres, na busca por economia e conforto.

Grande parte dos materiais de construção utilizados são, na realidade, sobras encontradas em bolsões de entulho ou nas ruas. O que é lixo para uns é a futura casa de outros. E podem até não parecer casas, mas são. “Eles aproveitam tudo”, diz Xaides.

São aproveitadas, inclusive, as qualidades térmicas dos materiais com o objetivo de isolar ou ventilar, por exemplo.

O professor afirma que muito do entulho que vai para bolsões poderia ser reaproveitado após processo de melhoria. Nas construções, de 20% a 30% dos materiais são desperdiçados. “Se você remoer esse material (sobras de massa, tijolo, areia, cal, concreto), dá para fazer calçada, parede, massa de assentamento, blocos de tijolos”, garante.

A técnica dos moradores, geralmente, é baseada no empirismo. As pessoas se adaptam às condições do local, à topografia.

Outra característica marcante é a forma de ocupação do espaço. As casas são justapostas umas às outras de acordo com a necessidade da família e segundo organização estabelecida pela comunidade local.

Ampliações sucessivas sem acompanhamento técnico são recorrentes. O objetivo é criar cômodos para agregar mais familiares à casa. “São lotes pequenos, casas pequenas, mas, normalmente, há um adensamento de população muito grande”, avalia Xaides.

Bauru ainda não chegou às ampliações verticalizadas, como ocorre na Vila Prudência, em São Paulo.

Os cômodos geralmente são multifuncionais. O reduzido espaço e as poucas paredes geram sobreposições de funções num mesmo local que pode servir de sala, quarto e cozinha ao mesmo tempo. “Na medida em que as pessoas têm mais dinheiro, a tendência é fragmentar a casa e colocar cada coisa no seu lugar”, avalia Xaides.

Se nas casas de classe média a área de serviço fica nos fundos, nas favelas não há esse preconceito e os varais ficam expostos a quem passa na rua.

Evolução

O professor de arquitetura observa que as casas de favelas começam como uma construção informal feita de sobras. Aos poucos, elas podem ser substituídas por outros materiais mais resistentes, como bloco cerâmico e massa.

Este é o caso do Jardim Nicéia, uma antiga favela de Bauru que agora passa por processo de transformação. Muitos barracos já foram substituídos por casas de alvenaria. Os moradores estão reivindicando a posse da terra por usucapião coletivo.

“Nas situações em que eles sofrem muita pressão pela desocupação do terreno, não investem tanto em materiais melhores. E na medida em que o governo tenta regularizar as terras, as favelas transformam-se”, comenta o professor.

O sistema viário também é precário. Em alguns casos, quase não existem ruas. São caminhos. “Não tem planejamento. A não ser aquele planejamento organizado pelas próprias pessoas na luta para se colocar dentro do próprio espaço, procurando um pedacinho de terra. Mas de forma irregular”, critica Xaides.

Em suma, falta estrutura, faltam equipamentos públicos, falta pavimentação, falta planejamento e acompanhamento de engenheiro ou arquiteto. “A justaposição das construções fica parecendo uma pintura cubista”, compara o arquiteto.

Ele critica a falta de política de habitação e diz que o poder público é omisso. “Não pressiona para não se ocupar dessas áreas. Se pressionasse, o problema social apareceria de tal forma que talvez tivéssemos uma organização popular na luta pela reforma urbana”, afirma.

Na opinião de Xaides, o governo deveria assumir o problema das favelas, que continuam crescendo. Atualmente, há 20 espalhadas pela cidade.

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