Não é só em favelas que há reaproveitamento de materiais e construções “despadronizadas”. Nos núcleos habitacionais de Bauru isso também acontece na hora de ampliar ou terminar a construção.
As casas, geralmente, são entregues umas iguais às outras e poucos meses depois não aparentam similaridade. Portões, muros, paredes e telhados são alterados, na busca da identidade ou de maior conforto.
O Núcleo Fortunato Rocha Lima, do projeto de desfavelamento, é um exemplo desse processo. Moradores mudaram os telhados, fizeram muro ou cerca, garagem, outros cômodos e adaptações. Cada casa tem uma “cara” diferente da outra.
Algumas têm acabamento, outras não. Nestes casos, fica aparente a mistura do bloco com o tijolo baiano na construção da parede, por exemplo.
Muitos dizem que o desfavelamento virou favela, mas as principais características de favela estão na parte ocupada por famílias que construíram barracos de madeira, logo na entrada do bairro.
A casa de Neuza Ferreira da Silva foi entregue sem acabamento e até hoje, após quatro anos, a família ainda não conseguiu terminar a construção. As paredes são de bloco aparente. As janelas não têm vidro e foram cobertas com plástico. A cerca foi feita com pedaços de madeira tirados de entulho.
O madeira também foi usada para a construção de mais dois cômodos nos fundos da casa. Neuza vive com a aposentadoria do marido, que está doente e por isso há muitos gastos com remédios.
A moradora do Fortunato Luiza Jamarine da Silva morava na Favela São Manoel antes de mudar-se e diz que gostava mais de sua antiga residência. “Lá tinha mais conforto para a gente. Era perto de médico. Aqui é muito custoso. Eu gosto daqui, mas gostava mais de lá. Era casinha de tábua, mas eu gostava”, reforça.
Outras técnicas
No Jardim Ivone, a casa de Márcia Leite dos Santos chama a atenção, entre as diversas residências construídas com madeira. O motivo é a disposição dos materiais na parede.
As lascas tiradas da madeira na confecção da tábua, que na verdade são sobras, foram dispostas horizontalmente de forma a escoar a água da chuva. Elas vão pingando de tábua em tábua e não entram dentro da casa.
Quando Márcia chegou ao bairro, a família morava numa barraquinha de plástico. Aos poucos, construíram um cômodo e depois foram ampliando. A mãe é catadora de lixo e traz materiais que podem ser reaproveitados. “A gente vai juntando até dar para construir alguma coisa”, explica.
Shirley Pereira mora há sete anos na favela do Jardim Ivone e diz que gosta do local, apesar dos problemas como falta área de lazer, creche, posto de saúde, mercado e padaria. “Tem que atravessar a pista para comprar alguma coisa”, reclama.
Ela gosta da convivência com os vizinhos e adora sua casinha de madeira. “Aqui é um cantinho sagrado”, afirma.