Enquanto temas como gravidez, drogas, racismo e religião são freqüentes em sala de aula, o homossexualismo está longe de ser abertamente debatido nas escolas. Para os professores, tratar de casos como o de um aluno que queria freqüentar o banheiro feminino ainda é uma questão complicada.
A revista Profissão Mestre, voltada para educadores, realizou uma pesquisa pela Internet e constatou que a pressão dos pais ainda é um empecilho na hora de contratar professores homossexuais. Entre os diretores que responderam à enquete, 47% dos que não empregariam esses profissionais alegaram este motivo.
A conselheira estadual do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial no Estado de São Paulo (Apeoesp), Suzi da Silva, diz que a situação melhorou bastante nos últimos anos, mas ainda não é a ideal. “Os professores não estão muito preparados para tratar dessa questãoâ€, admite.
Ela conta que a Apeoesp está tomando medidas para ajudar a preparar esses profissionais. “Nos dias 24 e 25, teremos em São Paulo um seminário que englobará o homossexualismo. O objetivo é oferecer subsídios que possam ser utilizados em sala de aulaâ€, diz.
Ela diz que Bauru vai estar representada no encontro. “Fizemos uma reunião no último dia 6 e elegemos quatro professores que estarão participando do eventoâ€, conta.
O dirigente regional de Ensino, Jair Sanches Vieira, acredita que é necessário mais compreensão para tentar acabar com o tabu. “As pessoas acham que os outros precisam ser do jeito que elas querem, e não como elas são. Olham primeiro os trejeitos, e depois a pessoaâ€, diz.
Para ele, os dois lados precisam saber se comportar de maneira correta para evitar conflitos. “Muitas vezes, o professor ou aluno homossexual quer brilhar mais do que os outros e, quando não consegue, passa a agredirâ€, frisa.
Vieira conta que já precisou intervir duas vezes em problemas relacionados a opção sexual. “Já recebemos o pedido de uma classe para afastar um aluno e de outra que queria substituir o professorâ€, conta.
Vieira diz que, em ambos os casos, a solução foi pacífica. “Nós conversamos com todos os envolvidos e pedimos que houvesse um entendimento, o que acabou ocorrendo. No caso do aluno que era homossexual, por exemplo, explicamos a ele que não seria possível freqüentar o banheiro feminino, como ele queriaâ€, relata.
Ele afirma que não há um curso voltado especificamente para preparar o professor sobre o tema da homosexualidade, mas que o assunto acaba sendo debatido no Programa Prevenção Também se Ensina, que trata das doenças sexualmente transmissíveis.
Ajuda
Para o diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieesp), Gerson Trevizan, discutir o homossexualismo em sala de aula não contribuiria para amenizar a discriminação. “A linguagem do professor já é contra todos os tipos de preconceitoâ€, diz.
Ele afirma, porém, que o aluno homossexual ainda é estigmatizado. “O grupo costuma isolá-lo, mas não é só no Brasil que isso ocorre. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos homossexuais moram em comunidades. Os grandes movimentos que surgiram recentemente em vários lugares do mundo são a prova de que o preconceito existe.â€
Trevizan conta que a instituição de ensino da rede particular que ele dirige tem regras claras sobre o assunto. “O professor jamais deve punir alguém por causa da opção sexualâ€, afirma.
Ele diz que alunos homossexuais já procuraram os psicólogos do colégio para pedir ajuda. “Eles confiam tanto nestes profissionais que, muitas vezes, precisam deles para conseguir contar aos pais.â€
Para a diretora do Centro do Professorado Paulista (CPP) em Bauru, Vera Lúcia Durand da Silva, o problema que impede o debate em classe é a falta de conhecimento por parte dos professores. “Nós não sabemos nem como lidar com isso. É o tipo de coisa que ninguém comenta.â€
Ela afirma que o CPP nunca recebeu denúncias de professores que sofreram preconceito por serem homossexuais. “Pode até ter acontecido, mas ninguém nos procurouâ€, afirma.
A professora Maria Tereza Turtelli, que dá aulas para o curso de pedagogia, diz que é difícil encontrar alunos e professores que assumam abertamente que são homossexuais. Ela acredita também que, atualmente, o preconceito é menor do que em épocas passadas. “Os tempos vão mudando. Antes, por exemplo, freqüentar a escola grávida era um escândalo. Hoje, ninguém mais liga.â€
A diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal da Educação, Fabíola Pereira Soares, concorda. “O ensino está voltado para o respeito à diversidade.â€
Para ela, a evolução dos alunos pode até causar a discussão do tema em classe. “Eles estão mais bem informados e podem acabar fazendo, voluntariamente, um questionamento.â€
Ela acredita que a maioria dos professores tem condições de responder às perguntas sobre o assunto. “Temos uma cartilha muito boa sobre as doenças sexualmente transmissíveis e quando, se fala disso, o homossexualismo está incluído.â€