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Cemitério do "Lauro" está em ruínas

Rose Araújo
| Tempo de leitura: 5 min

Uma história de 70 anos está se perdendo devido à ação do tempo e do vandalismo. A maioria dos túmulos do cemitério do Instituto Lauro de Souza Lima já não tem mais placa de identificação dos mortos e, muito menos, lápides mostrando quem são as cerca de 2,5 mil pessoas, a maioria portadores de hanseníase, que lá foram enterradas.

Área é referência histórica

O historiador e membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de Bauru (Codepac), Roberto Chinalhia, destaca que a estrutura do cemitério deve ser preservada da mesma forma que a de todo o conjunto de prédios que formam o Instituto Lauro de Souza Lima. â€œÉ uma referência da história de Bauru”, destaca.

A necrópole abriga cerca de 2,5 mil sepulturas. Elas são registro de uma época em que o preconceito e a discriminação eram os remédios que a sociedade usava para combater as pestes e os males sem cura.

Segundo Chinalhia, que está realizando um trabalho de pesquisa sobre os cemitérios da cidade, seria necessário fazer um projeto de revitalização daquela área, com o apoio de toda a comunidade. “O empresariado poderia contribuir, patrocinando um projeto cultural e relacionando a sua marca com a cultura local”, destaca.

Para o presidente do Codepac, Nilson Ghirardello, é preciso haver uma mobilização da sociedade visando recuperar aquele espaço do instituto, que tem um alto valor histórico para Bauru. “Os interessados podem buscar incentivos na Lei Rouanet, que garante descontos do pagamento do Imposto de Renda”, explica. Administrada pela Sociedade Beneficente “Enéas Carvalho de Aguiar”, a necrópole ainda está em atividade. “Os pacientes do hospital podem ser enterrados aqui, caso a família não tenha condições financeiras para levá-lo para outro lugar”, explica o diretor da divisão de ensino e pesquisa do Instituto Lauro de Souza Lima, Diltor Vladimir Araújo Opromolla.

Nem mesmo os túmulos mais suntuosos, como o do ex-diretor Oswaldo Cruz - que fez questão de ser enterrado no local - escaparam da depredação. A placa de bronze que o identificava foi roubada recentemente, como mostram as marcas da roda de uma moto ou bicicleta que passou pelo local.

Os mausoléus mais antigos, construídos no lado direito do cemitério, na década de 30, estão perdendo parte de suas estruturas. As paredes estão caindo e grande parte deles não tem placas identificando quem foi enterrado no local.

Situação pior estão as covas sem alvenaria. Feitas diretamente no chão, elas contavam apenas com uma placa de metal numerada, indicando o local onde estão os restos mortais dos antigos pacientes do instituto. Devido à ação do tempo, muitas caíram e foram arrastadas, deixando apenas terra em seu lugar.

Nivaldo Mercúrio, 76 anos, que vive no instituto há 58 anos, conta que é possível resgatar os nomes das pessoas que estão enterradas no local através do livro de registro de óbitos. “Quando precisamos identificar os restos mortais de alguém, a gente vê no livro e depois conta as quadras do cemitério”, salienta.

Memória viva do lugar, ele é uma das pessoas que podem contribuir para a recuperação dessa área do instituto. “Para restaurar o cemitério e identificar os túmulos, contamos com os livros de registro de óbito e com as pessoas que ainda vivem por aqui”, explica Marcos Virmond, diretor técnico do Instituto Lauro de Souza Lima.

Opromolla ressalta que a desolação do cemitério ocorreu porque as próprias famílias dos mortos deixaram de visitá-lo. “Tem muita gente que é de outra cidade e não costuma visitar os parentes enterrados aqui”, explica.

Quanto ao vandalismo, Vermond ressalta que esse tipo de ação começou a ser observada há poucos meses. “Antes, não havia isso nesse cemitério”, afirma. Ele diz que uma estrada vicinal que passa próximo à necrópole serve de acesso para os vândalos.

Restauração

O Instituto Lauro de Souza Lima passa por um período de recuperação da sua história. Os prédios que um dia abrigaram o teatro (chamado de cassino), a igreja e o coreto foram tombados pelo patrimônio e deverão ostentar em breve um aspecto semelhante ao que tinham nos anos 30 e 40, quando foram inaugurados. â€œÉ um trabalho minuncioso e que demanda um certo tempo para ser feito”, explica Opromolla.

O prédio onde funcionava o teatro e o cinema já teve parte de sua estrutura recuperada. Mais de R$ 100 mil já foram investidos nas obras de reforma, recurso proveniente do governo estadual e do Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O próximo passo é a igreja.

Cidade dos asilados

O Instituto Lauro de Souza Lima começou a ser construído em 1927. A idéia era abrigar as pessoas contaminadas pela hanseníase - também conhecida como lepra -, doença de pele que, na época, não tinha cura.

Cinco asilos foram criados em todo o Estado - além de Bauru, Guarulhos, Itu, Casa Branca e Mogi das Cruzes - com o objetivo de isolar as pessoas contaminadas. A internação era compulsória, ou seja, ao ser diagnosticada a doença, o paciente não tinha escolha: era removido para o local.

Nivaldo Mercúrio, 76 anos, foi um dos que vivenciou aquele período. Ele descobriu que tinha a doença aos 17 anos e foi imediatamente internado no Asilo-Colônia Aimorés (nome dado à entidade de Bauru na época).

“Eu vi muito sofrimento por aqui. Muitas pessoas queriam fugir, não se conformavam com o fato de ter de viver longe da família”, lembra.

Para conseguir reproduzir a vida em sociedade, os internos ergueram uma verdadeira cidade no local. Foram construídos cinema, igreja, bar, sorveteria, rádio, casas, quadra de esporte, cemitério, entre outras estruturas.

O asilo, que na década de 40 passou a ser denominado sanatório, chegou a ter cerca de 2 mil moradores.

O isolamento acabou no começo dos anos 70, quando os internos ganharam do governo a sua liberdade. A cura para a doença já havia sido encontrada (os remédios começaram a ser utilizados na década de 50), mas o vínculo com a família ficou perdido no tempo.

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