Lençóis Paulista – Um período ainda pouco conhecido da escravidão no Brasil e de particular importância para a região foi resgatado através de uma pesquisa desenvolvida pelo professor de história Edson Fernandes, morador de Lençóis Paulista (40 quilômetros a Sudeste de Bauru).
Em dois anos e meio de estudos dedicados à sua dissertação de mestrado pela Unesp de Assis, o historiador vasculhou inúmeros arquivos de cartórios e conseguiu realizar uma espécie de radiografia referente à época da escravidão em Lençóis, do período de 1860 a 1888.
O trabalho, de enfoque econômico, permitiu ao historiador levantar importantes considerações sobre as características de vida dos escravos no período.
Fernandes conta que seu interesse pelo assunto nasceu a partir de uma referência encontrada em um livro memorialista do historiador da cidade Alexandre Quito. Ao iniciar a pesquisa, ele descobriu que 10% da população local, de cerca de 6 mil habitantes, era constituída por escravos, segundo dados do primeiro censo nacional, realizado em 1872.
“Eu comecei a ir em cartórios porque os escravos eram registrados, comprados, vendidos, e nos cartórios haviam documentos antigos do final do século 19. Meu objetivo era fazer uma radiografia da escravidão em Lençóisâ€, explica.
Para tanto, o historiador deu início a um levantamento detalhado de inventários, cartas de alforria, registros de nascimento, batismo, casamento, óbito, além de documentos de compra e venda de escravos, que serviram como as principais fontes para o desenvolvimento do trabalho.
O documento mais antigo encontrado pelo historiador é de 1860, data que marcou o recorte da pesquisa, que se estende até o ano da abolição, em 1888.
Segundo Fernandes, a escravidão em Lençóis ainda não havia sido estudada pela historiografia brasileira, que dedicou grande parte das pesquisas sobre o assunto às regiões próximas ao litoral, nos primeiros pontos de povoamento do País. “No Brasil, basicamente no Nordeste, Bahia, e em São Paulo, o Vale do Paraíba na época do café. Essa área é bem estudada. São regiões mais antigas e com a produção voltada para o mercado externo.â€
Especialmente para a memória regional, o estudo de Fernandes ganha uma ressonância particular, já que Lençóis Paulista, emancipada em 1858, foi o último município da região a possuir escravos. Quando Bauru se emancipou, em 1896, por exemplo, a Lei Áurea já havia sido promulgada. “Quer dizer que Lençóis foi a última área no Estado de São Paulo, no sentido Tietê, que teve escravidãoâ€, explica.
Segundo ele, a pesquisa será disponibilizada em escolas e bibliotecas da cidade e da vizinha Bauru. “Uma parte da história de Lençóis está aqui, com documentos que eu tenho certeza que quase ninguém leu. De algum modo esse trabalho exorcizou alguns fantasmas e representa uma pequena contribuição para entender a escravidão em uma boca do sertão, uma região de fronteira.â€
Boca do sertão
Durante uma época específica da história de São Paulo, de promulgação de leis abolicionistas e entrada de imigrantes, Lençóis Paulista ocupou a posição de boca do sertão - o último reduto do povoamento do homem branco e ponto de apoio das expedições rumo ao Interior do território paulista, em meados do século 19. Nessa área, distante dos grandes centros produtivos da época, há registros de vários conflitos entre índios e brancos.
“As cidades mais velhas do Brasil são litorâneas. Quanto mais se avança para o Interior as cidades são mais novas. Então, a última cidade que depois dela tinha população indígena era boca do sertão. Além daquela, já não havia o povoamento branco. A boca do sertão era móvel. Botucatu foi boca do sertão, depois Lençóis, Bauru e Marília.â€
Segundo Fernandes, Lençóis foi a última cidade da região nessa condição durante o período escravista. E os negros foram personagens importantes no processo de desbravamento do território lençoense, que na época englobava uma extensa região. “Bauru, Agudos, Pederneiras, Macatuba, Águas de São Bárbara tudo isso era Lençóis. Era uma vasta área, desde o rio Tietê até o Paranapanema.â€