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Novos bárbaros


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Os leitores que nos honram e nos estimulam com a leitura do que temos buscado propor à consideração das suas inteligências e das suas consciências sabem que nos temos referido à existência do que designamos como “nação pluriestatal”, composta pelos adoradores do “deus” mercado, a cujo serviço oficia a “sumo-sacerdotiza” “democracia”, que não é outra coisa senão a versão degradada e depravada do verdadeiro ideal democrático, que não pode prescindir de um referencial fixo de valores. Ideal este que, como o temos dito e repetido, foi desconsiderado desde quando o art. 6.º da “Declaração Universal dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos”, promulgada em 1791 pela Revolução Francesa, substituiu aquele referencial, pela opinião circunstancial e volúvel de assembléias de legisladores, cuja composição e natureza da legislação que produzem podem ser, e efetivamente são, influenciadas pelos que detêm os meios próprios para conduzir os resultados eleitorais. Os que dominam a grande mídia e, através dela, as emoções e opiniões das massas de votantes, interferidas pela desinformação maciça que as vitima, ao sabor dos interesses que dominam a referida grande mídia e das técnicas cada vez mais sutis e sofisticadas postas em prática por ela.

Mas, felizmente, existe o que costumamos designar como “2.º plano da História”, conseqüente às interações ente o que os homens desejaram fazer a fizeram, sem entretanto prever a natureza daquelas interações e dos seus efeitos. Assim, os homens acabam por colher o que eles próprios semearam, exercitando-se o plano providencial, a conduzir a História sempre para cima e para o alto.

Vêm-nos essas observações, a propósito da aparente vitória dos novos bárbaros no Oriente Médio, que não representou senão o que é conhecido como “vitória de Pyrrho”. Falsa vitória em que o preço pago para alcançá-la ultrapassa de muito o valor do que foi cobiçado e conquistado. Sim, a brutal e covarde desproporção de meios entre os agressores do Iraque e os que este possuia, depois de dez anos de impiedosa repressão econômica, a que se seguiu a inspeção, pela ONU, de supostas armas de destruição em massa; inspeção a que, tudo indica, não faltou a infiltração de espiões que, na verdade, o que estavam fazendo era o levantamento dos meios de defesa de que dispunha o país a ser agredido, só podia terminar como terminou: com o esmagamento da vítima. Ocorre, porém, que o autor da façanha, a “nação pluriestatal”, é como um ídolo de pés de barro, cuja formidável força depende da ignorância pelos povos que infiltra e atraiçoa, sobre o fato de que ela realmente existe, e de que ingredientes se compõe. E a “vitória” que agora aparentemente conquistou, mais do que em qualquer momento anterior da História, rasgou os véus por detrás dos quais sempre se escondeu. Não é ainda um rasgar completo. Mas é o bastante para colocar o mundo diante de uma realidade de que praticamente não se cogitava, em impulso que não tende a cessar mas a avançar cada vez mais. Basta que seja observado o fato de que, não obstante a posse e manipulação da grande mídia, a opinião dos povos, no mundo inteiro, colocou-se contra o crime praticado. Os que eram os “mocinhos” do mundo, hoje são os seus execrados “bandidos”.

Afinal, não poderia passar em branco a brutalidade da agressão, nem o saque que se seguiu a ela, pior do que o que ocorreu no século 13, quando um neto de Gengis-Khan invadiu Bagdá, então capital do califado abássida que, já islâmico, sucedera na região, os sumérios, os acádicos, os assírios e os babilônios, naquele berço da civilização humana, agora talado pelos novos bárbaros a que nos referimos inicialmente. (Jorge Boaventura)

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