Líder de bilheteria em 1999, o primeiro “Matrix” produziu milhares de fãs no mundo todo. Desde a criação do bullet-time (aquele efeito da cena na qual Neo desvia das balas), apaixonados pelo tecnologia encontram no mundo da realidade virtual incríveis efeitos especiais produzidos por computação gráfica.
Famosos pela criação da cena que traz movimentos em 360 graus, os irmãos Wachowski conquistaram uma grande leva de adeptos ao retratar uma trilogia que reúne filosofia, religião e artes marciais. Em Bauru, diversos fãs revelam grande expectativa para assistir ao “Matrix Reloaded” - que teve pré-estréia realizada ontem nos cinemas da cidade.
Entre os principais interessados na série que continua a saga do hacker Neo (vivido pelo ator Keanu Reeves), destaca-se o designer Ricardo Toshioka, que comprou o DVD do filme e já perdeu a conta de quantas vezes já o assistiu.
Trabalhando na área de tecnologia, o designer conta que se identificou com os efeitos visuais apresentados na trilogia dos Wachowski. “O que me atrai são os recursos utilizados no filme, como a cena que traz o ângulo de 360 graus, na qual diversas máquinas fotográficas são posicionadas ao redor do ator e disparam simultaneamente”, diz.
“Parece uma coisa absurda, mas quando descobri como são feitas algumas cenas, percebi que eram simples e que ninguém havia pensado nisso antes, nem mesmo o George Lucas, que é o papa nessa área”, observa Toshioka, que desde o primeiro “Matrix”, passou a procurar na Internet informações que revelam os segredos das filmagens.
Além da alta tecnologia, a trilogia de “Matrix” mistura temas ligados ao cristianismo, budismo e filosofia. O “Mito da Caverna” de Platão - no qual as pessoas estão presas no mesmo lugar desde a infância e só vêem sombras -, e a distinção entre sonho e realidade, de René Descartes, são outros enfoques que despertam a curiosidade dos fãs.
Para Toshioka, a história do filme faz alusão ao catolicismo. “O Neo representa o Messias, que é o filho de Deus, ‘cyberneticamente’ falando”, diz. O designer ressalta ainda que o filme o fez refletir sobre questões filosóficas.
“Não sou um alienado, que fica procurando o Dèjá vu (uma alteração do programa de computador apresentada no primeiro “Matrix”), mas agora já sonhei com algo que aconteceu depois, como no “Matrix”. Agora estou parando para pensar se isso é verdade ou não”, confessa Toshioka, que já baixou arquivos da Internet do “Animatrix”, uma série de nove animações ligadas ao filme.
Na opinião do professor de informática Ralph Figueiredo, “Matrix” apresenta a idéia de que o ser humano pode ser manipulado pela máquinas, trazendo à tona discussões éticas e filosóficas. “De acordo com o hinduísmo e o bramanismo, vivemos é ilusão. O mundo de hoje, a TV e as propagandas, levam a liciar nossa mente”, diz.
“Somos muito alienados e a idéia do filme é mostrar que o ser humano pode ser manipulado. No filme, o homem é usado como bateria para as ativar as máquinas”, aponta Figueiredo, que sempre gostou de ficção científica e que já pesquisou na Internet e em revistas, dicas sobre o “Matrix Reloaded” e “Revolutions”.
Para o professor de informática, a religião é um ponto escolhido pelos irmãos Wachowski que chama a atenção, mas que pode causar polêmica. “A Trinity morre e o Neo a ressuscita, então o personagem tem o poder de milagre”.
Outro aspecto destacado por Figueiredo fica por conta dos limites entre a ficção e realidade. “No filme, Neo está lutando contra um software”, relata. “Hoje já existem empresas que desenvolveram um sistema de rede neural, um software que se assemelha ao cérebro, trabalhando num padrão de distribuição de sinal tal qual é um sistema neurológico do ser humano”, revela.
Já a estudante de direito Maria Cláudia Aceituno, que também assistiu inúmeras vezes ao primeiro “Matrix”, a realidade virtual apresentada na trilogia é uma característica muito distante da atual sociedade. “Fui ver ao (primeiro) filme por acaso, mas quando vi o que era adorei, porque mostra um mundo paralelo”, diz.
“Eu encaro a Matrix do filme apenas como uma realidade virtual e em comparação com o mundo de hoje, é muito fantástico”, comenta a estudante, que desde os nove anos se interessa por computadores.
Marketing para os jovens
Para Figueiredo, os irmãos Wachowski criaram uma estratégia de marketing voltada para a juventude. “O filme envolve características da moda, como computadores, personagens vestidos de preto, música pesada e cenas de lutas marciais. Tudo isso em um roteiro que traz filosofia, religião e a luta do bem contra o mal”, aponta.
A pré-estréia de “Matrix Reloaded” - que exibiu a primeira sessão do filme às 14h de ontem -, foi marcada pela presença em massa do público jovem. Na fila para ver um dos filmes mais esperados do ano, destacavam-se os estudantes Alekssey Di Piero, Letícia Lopes e João Leandro Neto.
Considerados fanáticos por Matrix, os jovens usavam óculos escuros e roupas pretas, no estilo dos personagens Neo, Trinity e Morpheus. Ansiosos para conferir a super produção americana, os estudantes aguardavam para ver ao filme, desde às 10h da manhã.
“Assisti ao primeiro ‘Matrix’ várias vezes, quase toda semana. Estou há vários anos esperando (pelo ‘Reloaded’) e minha expectativa é ótima. Já baixei todo o episódio do Animatrix e também encomendei o (jogo) ‘Enter the Matrix’”, declara Neto, minutos antes de entrar na sala de cinema.
Di Piero conta que a filosofia apresentada pelos irmãos Wachowski é o aspecto que mais o atrai. “Vai ser o melhor filme da história. Há milhares de anos as religiões professam a idéia de que a realidade é uma ilusão. Eu acredito piamente nisso”, afirma.