Articulistas

A estrada de Bagd


| Tempo de leitura: 4 min

São passados pouco mais de trinta dias da queda de Saddam Hussein e da mais significativa derrota da ONU em sua curta história. O momento é propício para avaliações e reflexões, a começar pela eleição de George W. Bush para a presidência dos Estados Unidos da América (EUA), após um resultado eleitoral cercado de suspeitas, exigindo recontagem e mantendo os números finais do pleito sob suspense por várias semanas. O veredicto só veio com a palavra final da Suprema Corte, órgão máximo do judiciário norte-americano. Com mais de dois séculos de democracia, os norte-americanos nunca tinham visto nada igual.

Foi com todo esse contencioso eleitoral que Bush Junior, na seqüência da posse, iniciou a implantação do estilo “bang-bang” de fazer política. Embora dos mais reacionários, ninguém imaginaria que ele determinasse essa trajetória que a política externa de Tio Sam adotou, com cobranças de comportamento e fidelidade de certas nações a ponto de impor-lhes uma situação humilhante. Ato contínuo, o palavreado de reprimenda se transforma em ameaça de bloqueios, invasões, etc. Está criada a doutrina Bush e o conceito de guerra preventiva como instrumento da ordem mundial fazendo, assim, ressurgir um poder absolutista sem precedentes desde o império romano.

Ao contrário de Bill Clinton, o atual ocupante da Casa Branca, George W. Bush, resolveu assumir explicitamente e sem constrangimentos a face imperialista do capitalismo ianque, sustentado pela extraordinária capacidade bélica das suas Forças Armadas, fazendo ressuscitar nos estudiosos a preocupação de outros períodos condenáveis da história contemporânea universal, como aquele em que Adolf Hitler foi figura central.

A opinião pública mundial acompanhou o desenrolar da guerra do Iraque, versão 2003, desde a inicial acusação das armas químicas de destruição de massas que o Iraque possuiria (até agora não foram encontradas) às absurdas afirmações da montagem de um eixo do mal composto por Irã, Síria e Coréia do Norte. Senão todos, a esmagadora maioria sabia, na questão das armas, tratar-se de desculpa esfarrapada desmentida que foi pelos desmoralizados inspetores da ONU.

Ocorre que era preciso fazer a guerra por diversos motivos, a começar pelo econômico, como sempre, envolvendo a indústria bélica que havia se preparado para um conflito mais longo no Afeganistão (leia-se Osama Bin Laden), que não aconteceu. A descoberta de mais reservas de petróleo no Iraque, colocando-o à frente da Arábia Saudita como maior reserva petrolífera do mundo, também é citada como uma das razões da guerra. War is business é o que entende o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono), que destacou um seu conselheiro, Richard Perle, no início de maio, para participar de um seminário com empresários e investidores sobre formas de como lucrar com o conflito no Iraque, conforme denúncia do jornal Los Angeles Times, baseado em documento ultra-secreto do governo norte-americano. Bush Junior não é tão idiota quanto parece, ou se é não perde tempo no quesito money pois, tão logo o barulho dos canhões diminuiu, entregou a recuperação dos poços de petróleo no Iraque para a empresa onde seu vice, Dick Chaney, fez carreira e, óbvio, sem concorrência pública.

No último dia 22 de maio a ONU suspendeu as sanções econômicas que pesaram sobre o Iraque por treze anos. Nesse período, a falta de comida, remédios e materiais cirúrgicos levou cerca de 1 milhão de crianças iraquianas à morte, segundo dados da própria ONU. Somem-se às infelizes crianças os milhares de civis mortos na última refrega. A responsabilidade por todo esse morticínio cruel está sendo “enterrada” pela moral dos vencedores na medida em que os EUA recebem da ONU total poder para dirigir o Iraque. Provavelmente, quando o butim petrolífero estiver sendo distribuído ninguém lembrará de um dos quadros mais dramáticos dessa guerra, aquele estampado nas páginas dos principais jornais do mundo onde um iraquiano que perdeu a mãe, o pai, a mulher, seis filhos, três irmãos e três cunhadas, aparece debruçado sobre um caixão e, apontando para os outros, em prantos, diz: “Sobre qual desses devo chorar”.

Existe uma questão cultural como pano de fundo disso tudo. É o Ocidente querendo impor seus costumes ao Oriente como que devolvendo, depois de milênios, as influências dali recebidas. Seria, em sentido inverso, o episódio bíblico da estrada de Damasco quando Saulo se converte em Paulo, o cristão, e traz para o Ocidente os ensinamentos daquela região, transformando o mundo. Só que Bagdá não é Damasco e, muito menos, Bush Junior tem cara de Saulo de Tarso. Talvez um novo milagre da multiplicação dos pães e peixes seja menos difícil do que mudar, em curto ou médio prazo, a cultura daqueles povos. É aguardar para ver. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro, ex-deputado federal, ex-secretário de Estado da Agricultura e ex-prefeito de Bauru)

Comentários

Comentários