Tornou-se uma das marcas do PT no governo federal os desmentidos e as declarações de que a discussão em torno de alguma bobagem dita pelo presidente ou seus assessores estava encerrada. Mais do que simples despreparo, deslumbramento com o poder e arrogância, estas ações - cujo último episódio foi a gafe monumental do principal ministro do governo dizer, à elite petista, o que realmente está sendo feito com o país - mostram a falta de respeito com a palavra .
A palavra é a matéria-prima básica da política, é através dela que se exerce o debate, a argumentação, a contraposição de idéias, o convencimento. É ela o instrumento através da qual se exerce a reflexão racional na qual se busca o interesse público. Este é o funcionamento sadio da política, na qual a coerção cede lugar ao convencimento, característica essencial da democracia.
O discurso político não é um amontoado de palavras jogadas às massas, conforme as conveniências, passível de ser alterado conforme a ocasião. A mudança de opinião é legítima, desde que fundamentada no convencimento, na superação dos raciocínios que deram origem ao engano.
É também a palavra o maior patrimônio do homem público. Saber usar-se dela para defender seu ponto de vista ou para combater a opinião da qual discorda é talvez a principal qualidade de um político em qualquer tempo. E quantas vezes a história não mostrou ser esta arma - quando fundamentada na verdade e na justiça - mais poderosa que os canhões e exércitos.
Assim é com profunda tristeza que se vê a imensa lista de ocasiões nas quais o Governo do PT, tanto em São Paulo como no Brasil, vem dando pouco valor à palavra. A palavra tem sido sistematicamente violada pelo PT quando o partido, sem nenhuma autocrítica que fundamente a mudança, descarta sem mais nem menos o seu discurso.
A evolução e maturidade política do PT pode até explicar esta alteração, na medida que o partido está obrigado pelos fatos a deixar o discurso desligado da realidade que caracteriza um pequeno partido de oposição sem chances de chegar ao poder, pelo de um partido forte que ao chegar ao poder tem de admitir a entrada do real nos seus planos. Contudo nem mesmo este ajustamento à realidade, processo comum na história de tantos partidos pelo mundo, pode dispensar o PT de justificar a mudança de opinião, destacando os fatos que os levaram a evoluir da posição primitiva à atual.
Mas há algo ainda de mais sério referente ao PT em sua relação com a palavra. A pedra neste relacionamento tumultuado entre ambos é o pouco valor que o PT dá a ela, em todas as suas acepções. O discurso, para o PT, não é uma expressão de idéias, mas um meio de chegar ao poder a qualquer custo.
Assim não há valor na palavra empenhada nos palanques, discursos e ao longo da história do partido, assim como tampouco importa o poder da palavra para convencer, bastando o uso da força bruta da arregimentação de uma base parlamentar forte, obtida às custas do loteamento de cargos e outros métodos.
O que se diz vale muito pouco para o PT, por isso todos os petistas acham muito natural que depois de dizerem qualquer besteira simplesmente considerem a discussão encerrada, atribuindo a viéses políticos ou má vontade dos adversários o fato destes insistirem em continuar apontando as aberrações do discurso. O descaso pela palavra revela-se também no descaso pela história, que para os petistas tem a mesma flexibilidade que na concepção do Grande Irmão em 1984, podendo ser reescrita e reformulada a todo instante, conforme as conveniências indicam.
É assim também que o PT admite um duplo discurso, a palavra prostituída do discurso destinado às massas e o discurso objetivo destinado ao partido, mostrando que o velho ranço das concepções leninistas de partido de vanguarda que deve guiar o povo por todos os meios, continua tendo adeptos. O povo, para o PT, não está preparado ou à altura da verdade, deve ser enganado pelo discurso ufanista como o que antecedeu, por um dia, no horário eleitoral da TV, as palavras de José Dirceu. Na quinta o PT perguntava o que estava acontecendo com este país, na sexta o ministro petista respondeu, mas só para os iniciados. (O autor, José Police Neto, é presidente do diretório Municipal do PSDB de São Paulo)