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Os juros


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Segundo as sagradas escrituras, quando matou Abel, o dinheiro ainda não existia. Mas, quando Judas Iscariotis traiu Jesus indicando aos soldados romanos, com um beijo na face, quem era seu mestre, o vil metal já era importante na sociedade da época. Esse “serviço” rendeu ao traidor 30 moedas de prata. Paulo, ainda quando apostolo, dizia que: “A raiz de todos os males é o dinheiro”. Mal sabia que, tempos depois, boa parte dos homens iria discordar dele achando que o dinheiro é a solução para todos os males.

Na Idade Média, a cobrança de juros era considerada imoral. A Igreja Católica condenava ao “fogo do inferno” os que exerciam tal pratica e, por isso, os negócios de empréstimos com cobranças de juros era reservado aos “não-cristãos”, particularmente aos judeus. A cobrança de juros era classificada como usura.

Nos dias de hoje, se prevalecessem os conceitos daquela época, ia faltar lugar no “inferno” para colocar os banqueiros que existem por aí praticando a usura. Embora sendo crime capitulado em algum código da ciência do Direito, conta-se nos dedos de uma das mãos os condenados por tal delito.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, se reúne outra vez para discutir a política monetária do País, e dentre os temas, o mais aguardado: a taxa de juros. Há uma grita geral com relação às absurdas taxas de juros praticadas no Brasil. As reclamações unem patrões e empregados, perpassando pelos mais diferentes ramos de atividades. Pode-se afirmar, sem exagero, que há um clamor geral contra os usurários da banca. Favor não confundir os “usurários” com os pobres dos “usuários” do sistema bancário, que pagam taxas de juros que variam, pessoa física, de 61,9% a.a ate 172% a.a..

O clima é quase de Copa do Mundo. Os técnicos Parreira e Zagallo, ou melhor, Palocci e Meirelles, sob a justificativa do combate à inflação, têm propiciado aos banqueiros lucros maiores que os R$ 20 bilhões que eles tiveram em 2002. A indústria, voltada para o consumo interno, está investindo menos. O comércio está amargando uma queda, neste primeiro trimestre de 2003, de 2,3% sobre igual período do ano passado. Quem “segurou a peteca” dos “gols” da economia, no primeiro trimestre de 2003, foi a agropecuária (crescimento de 8,6%) e as exportações (crescimento de 24,9%), aproveitando a boa safra plantada no ano passado e a alta da taxa de câmbio que favoreceu o comércio Exterior. Comprovando esse quadro de estagnação econômica, o insuspeito Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 0,1% em relação ao último trimestre de 2002. Enquanto o sistema produtivo tradicional se contenta com uma margem média de lucro líquida da ordem de 6%, a banca tem esse índice na marca de 33%, proporcionado em grande parte pela aplicação de suas reservas, 70%, em títulos do governo, portanto, sem riscos de inadimplência.

A inflação está declinante há meses. Há pouco dinheiro na praça e, portanto, pouco consumo e, assim, não há a chamada inflação de demanda. Os custos de produção, na maioria dos casos, despencaram com o dólar, combustível, etc., levando a inflação de custos a perder o fôlego. Portanto, não há nada que impeça o Lula, Palocci, Meireles & Cia. de iniciar o processo da queda dos juros. Só assim será possível gerar mais empregos.

Caso isso não aconteça, nos restará uma última alternativa: chamar o bispo e ressuscitar os conceitos da Igreja, na Idade Media, condenando ao “fogo do inferno” os pecadores por usura. Será que vai sobrar algum banqueiro pra contar a história ? (O autor, Tidei de Lima, é ex-prefeito de Bauru, ex-deputado federal e ex-secretário de Estado da Agricultura)

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