Uma das lições duradouras da história é que nenhum grande poder durou para sempre. O século XX viu a queda do Império Britânico. Na Índia, a jóia da coroa, esse império foi derrotado por um homem desarmado que vestia apenas alguns trapos, Mahtma Gandhi, de quem os colonialistas britânicos zombavam ao chamá-lo de faquir nu. Gandhi nos ensinou a não nos ajoelharmos nunca diante do poder brutal. O verdadeiro poder, destacava, descansa na autoridade moral para aderir ao caminho da paz e da fraternidade.
A crise o Iraque trouxe à tona a pertinência das Nações Unidas e do sistema de leis e normas para a conduta internacional que essa organização encarna. Os falcões dos Estados Unidos argumentam agora que seus interesses de segurança são o mais importante e que defendê-los requer freqüentemente a aplicação da força avassaladora para destruir todo desafio incipiente.
Tais argumentos estão equivocados e são perigosos. As Nações Unidas talvez não tenham sido uma instituição perfeita, embora encarne certos valores fundamentais para qualquer comunidade democrática. Em primeiro lugar, a ONU personifica regras e normas para uma conduta internacional voltada a estabelecer o império da lei em nível internacional. Além disso, o princípio da igualdade soberana, englobado na Carta da ONU, reconhece que mesmo as nações sendo, evidentemente, desiguais em termos de poder estatal, têm direito a um tratamento igual dentro da comunidade das nações.
Por fim, a ONU busca tirar a legitimidade do uso da força para resolver disputas internacionais. Neste caso, novamente a organização recorre ao princípio bem estabelecido nos códigos civis de que o castigo só pode ser conseqüência de um devido processo legal.
Poderia-se argumentar que os procedimentos da ONU são arrastados e exigem muito tempo, por isso necessitam ser melhorados. Mas, disso não se pode concluir que o sistema da ONU e os valores democráticos que encarna devem ser desprezados. Apesar de todos seus defeitos, a ordem multilateral permitiu que o mundo se visse livre de uma grande guerra durante o último meio século e, desse modo, cumpriu seu objetivo primário de salvar as futuras gerações do flagelo da guerra.
Os problemas da degradação ambiental e do aquecimento do planeta, para citar apenas algumas das crises que nos rondam, colocam em dúvida o bem-estar coletivo da humanidade. Nunca como antes são necessárias a cooperação e a unidade. Qual o caminho daqui para a frente? Um pouco de humildade nos permitiria recordar que está além da capacidade humana a compreensão completa das trevas dos fatos futuros.
A natureza dos desafios do amanhã está além do poder da razão humana e somente os meios com os quais enfrentaremos e superaremos esses desafios estão ao nosso alcance.
Devemos nos dedicar novamente a utilizar meios pacíficos. Uma perigosa permissividade para com a guerra está se convertendo em moda. Os orçamentos militares aumentaram em todo o mundo numa frenética corrida para a autoconservação. A partir da segurança coletiva estamos descambando para a anarquia da insegurança coletiva. A violência é terrível quando cometida por indivíduos, mas usada como instrumento da política de um Estado é infinitamente mais destrutiva. Como vimos na Índia, as rodas da não-violência talvez girem lentamente, mas, como as rodas de Deus, giram de forma inexoravelmente segura. (O autor, I. K. Gujral, é ex-primeiro-ministro e ex-ministro das Relações Exteriores da Índia)