“As pessoas precisam de mais atenção. Elas são muito desprezadas e tristes, sozinhas.” Essa é a avaliação de Jonatas Guilherme de Matos, 9 anos, sobre a situação de seus vizinhos no Núcleo Fortunato Rocha Lima.
A sensibilidade do garoto permitiu que ele detectasse um problema que muitas vezes fica escondido por trás de desabafos referentes a problemas cotidianos.
O garoto conta que tem amigos no bairro e que gosta de morar no local, embora adoraria mudar muitas coisas do núcleo. “Quase tudo. Ladrão tem muito. Poderia ter um parquinho para brincar”, sugere.
Jonatas começou a sentir-se melhor depois das aulas de flauta que recebe através do Projeto Girassol, desenvolvido no bairro. Ele acredita que seria positiva a criação de outros projetos similares. “Gosto quando as pessoas prestam atenção à minha música”, confessa.
Cleide Aparecida Soares da Silva, professora do bairro, percebe no contato com a comunidade a intensidade da carência afetiva das pessoas. “Eles são carentes de afeto, de toque. Às vezes, é só parar e conversar com eles. Pessoas de qualquer idade precisam bastante disso”, afirma.
Os desabafos também são freqüentes na escola, onde as pessoas falam sobre seus problemas pessoais ou profissionais. “Há coisas que nós ficamos sabendo através das crianças antes dos pais. Estamos muito próximos e passamos uma certa segurança”, conta.
A necessidade de falar e comentar é gritante porque dificilmente outras pessoas param para ouvi-los. “Eles querem falar, se expressar, mostrar alguma coisa. As pessoas nos procuram para falar de si, da família”, enfatiza Cleide.
Mais problemas
Ivanise Pereira da Silva, por exemplo, fala sobre a discriminação que sofre por morar no Núcleo Fortunato Rocha Lima. Ela está com dificuldade de conseguir emprego. “Com certeza, precisamos de atenção. É bom conversar e seria bom ter um grupo de pessoas que atuasse no bairro com isso”, opina.
Santina Vitorina Martins Silva, 64 anos, diz que o bairro carece de escola e posto médico. “Todo bairro precisa de mais um pouco de atenção. As pessoas precisam. Nós somos pobres”, destaca.
Neusa Ferreira, 57 anos, e João Prudêncio da Silva, 76 anos, reclamam não só da estrutura do bairro, mas da solidão. Eles passam a maior parte do tempo em casa, sozinhos. Os filhos do casal moram em Bauru, mas não costumam visitá-los. “Sentimos falta de companhia. Se os filhos chegam, a gente fica alegre. Visitas são boas”, expõe Neusa.
“Mas faltam outras coisas que estão difíceis de resolver. Falta um posto médico mais perto, falta asfalto”, acrescenta a moradora, cujo marido tem problemas respiratórios.
A primeira queixa de Oswaldo Pereira da Silva, que trabalha com carreto, é sobre a violência no núcleo. “Aqui está precisando mesmo de polícia. Os vagabundos não têm o que fazer e vêm quebrar e roubar as coisas dos outros. Meu cavalo já foi roubado”, reclama.
Ele também menciona a discriminação, dizendo que cidadãos de outros bairros dificilmente vão ao Fortunato Rocha Lima por medo. “Falta atenção. Fazer o quê? Entre as pessoas, uns querem ser mais que os outros”, avalia.
A professora Cleide diz que há entidades que oferecem atendimento psicológico no bairro, mas afirma que a demanda exige que o serviço seja ampliado. “Precisaria ter mais. Seria ótimo se existisse um trabalho totalmente voltado para a auto-estima da pessoa. Faz falta”, salienta.
O pintor Paulo Flávio Lourenço Moura, 51 anos, morador do Fortunato, confirma que as pessoas gostam de conversar e precisam de atenção. “Parece que nós somos abandonados nas casas”, explica o viúvo, que vive sozinho.
Ao final da entrevista, Paulo surpreendeu a equipe do JC com um agradecimento. “Obrigada pela atenção.”