Bairros

Jornal pode suprir carências

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Um projeto de alunos de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) está apostando na possibilidade de resgatar a auto-estima, a cidadania e a felicidade dos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima.

Trata-se do jornal comunitário “Fortunato Comunica”, cuja primeira edição acaba de sair do forno. A idéia é que o veículo de comunicação seja feito com o morador do bairro e para ele. “Não é só o jornalista que faz o nosso jornal comunitário”, expõe a professora Jane Brito de Jesus, orientadora do projeto.

O trabalho começou há dois anos e meio com o projeto de pesquisa “Jornal Comunitário Resgatando a Cidadania”. Os alunos Bruno Ravanelli Pessa e Vanessa Matos dedicaram-se a conhecer melhor os moradores do núcleo e a traçar o perfil dessa população, através de questionários.

A comunidade participa das reuniões de pauta e até mesmo da elaboração de textos. A preocupação é que os moradores sejam cada vez mais inseridos no processo. “Eles escrevem e sentam com os alunos para a correção dos erros”, diz a professora.

Entre os assuntos abordados na primeira edição do “Fortunato Comunica”, está a história do bairro, o preconceito enfrentado pela população e a dengue.

Como os alunos detectaram muitos problemas de saúde e de higiene, o jornal conta com um suplemento de saúde, elaborado por Bruno.

“É preciso que alguém os ensine a morar numa casa de alvenaria. Muitos nasceram e estiveram a vida toda em favela”, expõe Jane.

Ela acredita que o jornal comunitário pode ajudar a população do Fortunato a entender o que é ser cidadão. “Nós queremos que isso ajude as pessoas a serem mais felizes e que o jornal seja uma força a mais que eles não têm”, continua a professora.

“O mais importante é que essas pessoas encontrem a felicidade porque elas não são felizes. E nós nos sentimos infelizes também porque estamos acompanhando essa vida”, reforça.

Aí é que mora a principal dificuldade do trabalho. A elaboração do jornal é rápida se comparada à participação dos moradores do núcleo, que não têm esse hábito.

“A primeira edição já sairá com a participação da comunidade, mas ainda não é a ideal - com iniciativa própria deles. Eles não têm prática e nós estamos dando esse suporte”, explica Bruno.

A aluna Vanessa enfatiza a importância do papel do jornal comunitário. “Estamos defendendo a hipótese de que o comunicador social consegue trabalhar a auto-estima para que as pessoas sintam-se cidadãs novamente”, observa.

Os autores do projeto esperam que a comunidade aprenda as técnicas e dêem continuidade à iniciativa, sob supervisão da universidade. “Queremos que eles participem das atividades e possam tirar benefícios disso”, diz Bruno. “Conseqüentemente, virão as conquistas e a felicidade”, acrescenta.

Ele é otimista quando à possibilidade de reverter o quadro atual. “Apesar das limitações impostas, queremos que as pessoas se reconheçam como sujeitos e sejam conscientes da situação para propor atitudes. Elas não podem se acomodar e achar que não têm condições porque a vida é assim”, avalia.

O universitário acredita que, apesar das peculiaridades de cada bairro de periferia, a iniciativa de jornais comunitários traria resultados positivos em outras localidades.

“A demanda existe e as pessoas acreditam nisso. Sentimos que se mais pessoas se dispusessem a contribuir com o jornalismo comunitário, outros bairros poderiam aproveitar essa idéia e seus benefícios”, opina.

“A nossa paixão por ver o outro crescer é o que vale”, conclui Jane.

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