Um projeto de alunos de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) está apostando na possibilidade de resgatar a auto-estima, a cidadania e a felicidade dos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima.
Trata-se do jornal comunitário “Fortunato Comunica”, cuja primeira edição acaba de sair do forno. A idéia é que o veículo de comunicação seja feito com o morador do bairro e para ele. “Não é só o jornalista que faz o nosso jornal comunitário”, expõe a professora Jane Brito de Jesus, orientadora do projeto.
O trabalho começou há dois anos e meio com o projeto de pesquisa “Jornal Comunitário Resgatando a Cidadania”. Os alunos Bruno Ravanelli Pessa e Vanessa Matos dedicaram-se a conhecer melhor os moradores do núcleo e a traçar o perfil dessa população, através de questionários.
A comunidade participa das reuniões de pauta e até mesmo da elaboração de textos. A preocupação é que os moradores sejam cada vez mais inseridos no processo. “Eles escrevem e sentam com os alunos para a correção dos erros”, diz a professora.
Entre os assuntos abordados na primeira edição do “Fortunato Comunica”, está a história do bairro, o preconceito enfrentado pela população e a dengue.
Como os alunos detectaram muitos problemas de saúde e de higiene, o jornal conta com um suplemento de saúde, elaborado por Bruno.
“É preciso que alguém os ensine a morar numa casa de alvenaria. Muitos nasceram e estiveram a vida toda em favela”, expõe Jane.
Ela acredita que o jornal comunitário pode ajudar a população do Fortunato a entender o que é ser cidadão. “Nós queremos que isso ajude as pessoas a serem mais felizes e que o jornal seja uma força a mais que eles não têm”, continua a professora.
“O mais importante é que essas pessoas encontrem a felicidade porque elas não são felizes. E nós nos sentimos infelizes também porque estamos acompanhando essa vida”, reforça.
Aí é que mora a principal dificuldade do trabalho. A elaboração do jornal é rápida se comparada à participação dos moradores do núcleo, que não têm esse hábito.
“A primeira edição já sairá com a participação da comunidade, mas ainda não é a ideal - com iniciativa própria deles. Eles não têm prática e nós estamos dando esse suporte”, explica Bruno.
A aluna Vanessa enfatiza a importância do papel do jornal comunitário. “Estamos defendendo a hipótese de que o comunicador social consegue trabalhar a auto-estima para que as pessoas sintam-se cidadãs novamente”, observa.
Os autores do projeto esperam que a comunidade aprenda as técnicas e dêem continuidade à iniciativa, sob supervisão da universidade. “Queremos que eles participem das atividades e possam tirar benefícios disso”, diz Bruno. “Conseqüentemente, virão as conquistas e a felicidade”, acrescenta.
Ele é otimista quando à possibilidade de reverter o quadro atual. “Apesar das limitações impostas, queremos que as pessoas se reconheçam como sujeitos e sejam conscientes da situação para propor atitudes. Elas não podem se acomodar e achar que não têm condições porque a vida é assim”, avalia.
O universitário acredita que, apesar das peculiaridades de cada bairro de periferia, a iniciativa de jornais comunitários traria resultados positivos em outras localidades.
“A demanda existe e as pessoas acreditam nisso. Sentimos que se mais pessoas se dispusessem a contribuir com o jornalismo comunitário, outros bairros poderiam aproveitar essa idéia e seus benefícios”, opina.
“A nossa paixão por ver o outro crescer é o que vale”, conclui Jane.