A resistência ao parto normal na rede privada de saúde é resultado de uma herança cultural. Essa é a opinião dos médicos ouvidos pelo JC. Para alguns, a falta de incentivo parte da própria família das gestantes. Para outros, a classe médica também tem responsabilidade pela grande quantidade de cesáreas.
“Cesárea na rede particular é uma questão cultural, que envolve até a formação profissional dos médicos. Durante os estágios e os plantões, eles já fazem mais cesáreas. Por isso, acabam tendo mais experiência e segurança para fazer”, destaca a médica sanitarista da Direção Regional de Saúde (DIR-10), Tisuko Cinto Rinaldi.
O diretor clínico da Maternidade Santa Isabel, César Augusto da Silva, concorda com a questão cultural, mas garante que as universidades preconizam o parto normal, já que o risco para a mulher e a criança são menores. Segundo ele, com a operação, a paciente fica suscetível a problemas cirúrgicos, anestésicos e hemorrágicos, além de passar por uma recuperação mais lenta.
“Para o recém-nascido também é melhor, porque na passagem pelo canal de parto ele elimina as secreções das vias aéreas. Mas a cesárea tem seu papel fundamental e é indicada em casos complicados ou de gestação de alto risco. Culturalmente você é cobrado pelas pacientes de convênio particular. Normalmente, elas fazem a opção pela cesárea e temos de respeitar”, explica Silva.
Porém, ele não nega que as cirurgias também representam uma comodidade para os médicos, pois são agendadas previamente. Pensa de maneira semelhante o ginecologista e obstetra Jair Marcelino da Silva Filho.
“Para o médico, a cesárea é mais fácil justamente por causa do tempo. Mas hoje a gente observa que as pacientes são incentivadas pelas próprias mães a optar pela cesárea. Elas já chegam ao consultório decididas. E quando é assim, nem dá certo fazer diferente”, esclarece. Silva Filho atende na rede particular em Bauru e em mais duas unidades básicas de saúde.
Com as mesmas atribuições, o também ginecologista e obstetra Antonio Monteiro Fernandes Júnior reafirma as idéias pré-concebidas sobre o parto normal. Na opinião dele, para a maioria das mulheres ele é sinônimo de dor e sofrimento.
“A rede pública faz mais (partos normais) porque tem metas para atingir. Mas cada caso deve ser avaliado individualmente, com cuidado, como vem fazendo a Maternidade Santa Isabel”, elogia.
Por pensar como ele, Fabiana Gaspar decidiu fazer seu terceiro parto normal. Na ocasião da entrevista, ela estava entrando no nono mês de gestação.
“Gostaria de tentar parto normal porque a recuperação é mais rápida. A contração dói muito, mas depois que nasce, você não sente mais nada. Não deve ser fácil cuidar de um bebê com um corte na barriga.”
Avaliação idêntica faz Cristiane Gomes Pereira, de 16 anos, que também tem preferência pelo parto normal. “Eu prefiro porque muita gente fala que a recuperação da cesárea é muito dolorosa. Mas cada um diz uma coisa diferente. Estou com medo da dor.”