Dois fatos envolvendo a produção e a utilização de medicamentos, divulgados neste mês, estão deixando a população brasileira alarmada. Primeiro foi o Celobar, um líquido de contraste usado em radiografias que é suspeito de provocar a morte de 21 pessoas no País. O remédio é fabricado pelo laboratório carioca Enila, que está sendo acusado de realizar experimentos químicos de forma irregular.
Em entrevista ao Jornal da Cidade, a professora da área de farmácia e especialista em farmacologia e toxicologia (ciência que estuda os venenos e os efeitos adversos) Efigênia Queiroz de Santana falou sobre as práticas desenvolvidas pelos laboratórios brasileiros, os riscos da automedicação e o papel desenvolvido pelo farmacêutico.
Segundo o Conselho Regional de Química do Estado do Rio de Janeiro, o Enila não poderia ter praticado a experiência de transformação de carbonato de bário - utilizado em venenos contra ratos - em sulfato de bário, que é o princípio ativo do Celobar, como vinha fazendo este ano.
Outro problema que assustou a população ocorreu com o colírio Methyl Lens Hypac 2%, medicamento utilizado para proteger os olhos após a cirurgia de catarata. Produzido pelo laboratório Lenssurgical Oftalmologia e distribuído pela Mediphacos, o remédio é suspeito de ter provocado cegueira parcial e total em sete pacientes de dois diferentes hospitais no Rio de Janeiro.
Em resolução de 4 de fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sustentou que o Lenssurgical não estava devidamente autorizado junto ao órgão e determinou a apreensão do produto fabricado pelo laboratório em todo o território nacional.
Os casos de intoxicação provocada por remédios levam à tona questionamentos envolvendo a ética profissional e os cuidados que os pacientes devem ter em relação à utilização de medicamentos.
A professora Efigênia esclarece que toda substância que causa um dano à saúde ou leva o paciente à morte é considerada um tóxico.
Entretanto, ressalta que existem diferentes fatores que podem levar um indivíduo a sofrer uma intoxicação. Entre eles, a sensibilidade de cada pessoa e a dosagem do medicamento. Confira a seguir alguns trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como a senhora caracteriza uma substância tóxica? Efigênia Queiroz de Santana - Tóxico é igual a veneno, ou seja, qualquer substância que introduzida no organismo causa um dano à saúde ou leva o indivíduo à morte. Dependendo da ocasião, a água é um veneno. Um exemplo disso é o indivíduo que tem insuficiência renal grave. Quando alguém morre afogado, a água é a causa. Então, qualquer substância pode levar à intoxicação.
JC - As intoxicações causadas por remédios são consideradas freqüentes? Por que? Efigênia - Pensando no contexto de Bauru até que não, porque as medicações que são vendidas nas farmácias não têm potencial altamente tóxico. Mas há várias causas que podem levar o indivíduo à intoxicação e tudo vai depender desses fatores. Um deles é o fator individual, que nós chamamos de idiossincrásico. Cada indivíduo é sensível a um determinado produto. Por exemplo, se a pessoa for alérgica ao remédio AAS e tomá-lo, vai sofrer uma reação alérgica. Naquela hora, a substância tornou-se tóxica para o paciente. Outro fator que pode levar o indivíduo à intoxicação é a dosagem do medicamento. Existe um ponto muito sério nisso que nós chamamos de automatismo medicamentoso, no qual a pessoa pode tomar uma dose maior do medicamento por ignorância ou intencionalmente, ou seja, com finalidade suicida. Ainda existe a interação medicamentosa, quando o indivíduo toma duas medicações por conta própria, ou seja, por automedicação.
JC - O Celobar e o colírio Methyl Lens Hypac 2% são suspeitos de ter provocado a morte de 21 pessoas e a cegueira total e parcial de sete pessoas, respectivamente. Estes casos devem ser considerados isolados ou não? Efigênia - Depende muito da quantidade de pessoas que tiveram acesso aos medicamentos e a quantidade de pacientes afetados. No caso do colírio, por exemplo, se ele foi testado em pacientes sem que antes tivesse passado por uma série de testes, está errado. Mas apesar de sete pessoas apresentarem problemas, o medicamento pode até ter sofrido uma série de testes. É preciso saber, no contexto geral, quantas pessoas usaram o remédio, mas nós não sabemos. Em uma média de 100 pessoas, esse número pode ser representativo, mas e se o colírio foi aplicado em cerca de 1.000 pessoas? Pode ter sido um problema do próprio indivíduo, de sensibilidade à substância.
JC - Qual a margem de segurança que os laboratórios têm na preparação de medicamentos? Efigênia - Nenhum laboratório têm o direito de fazer experiências com humanos, sem que antes tenha passado por uma prévia. O medicamento, para ser lançado, deve passar em torno de dez a 12 anos em teste. Primeiro seriam realizados experimentos com alguns animais. Depois que as avaliações indicassem que não haveria riscos para os animais é que o remédio passaria a ser testado em um número “x” de homens, no qual o médico que participa deve fazer um relatório para a indústria que estiver produzindo aquele medicamento. Depois disso, ele terá que passar por uma equipe que vai aprovar a medicação, e só depois ele poderá ser lançado no comércio. Ou seja, existe um protocolo muito cuidadoso. O laboratório FDI, nos Estados Unidos, faz isso com muito critério. Na época da talidomida, que provocou mutilações em diversos pacientes, os americanos tiveram poucos casos de reações produzidas pela substância porque o laboratório não permitiu o uso da medicação enquanto ela não passasse pelos rigorosos testes dos americanos.
JC - Existe uma real preocupação quanto à fabricação de remédios no Brasil? Efigênia - Na realidade, existem pouquíssimas medicações acabadas aqui no Brasil, e também poucos laboratórios que produzem medicamento novo. Então, nós não fazemos, nós copiamos. Mas o fato de copiar não exclui a necessidade dos testes. Entretanto, de um modo geral os cuidados na produção dos remédios existem, sim. Geralmente, em um laboratório de produção o pessoal está paramentado e muita coisa é automatizada. Em geral, as boas práticas de produção são seguidas, mesmo porque existe uma fiscalização, que embora não seja a melhor e mais eficiente, acompanha os laboratórios brasileiros.
JC - Há uma polêmica envolvendo o laboratório Enila, que é acusado de realizar experimentos químicos de forma irregular visando apenas o lucro. Como a senhora avalia a questão da ética profissional? Efigênia - O laboratório visa lucro, sim. Toda medicação nova é muito cara e, como eu já disse, são necessários cerca de dez a 12 anos para se lançar um remédio novo no mercado. O laboratório vive do lucro, só que ele não pode fazer isso sem preservar a saúde pública e sem respeitar o indivíduo. No caso do Celobar, se for comprovado que o Enila realizou experimentos sem protocolo, ou seja, sem primeiro passar por todos os testes necessários para que o remédio fosse liberado para uso clínico, aí os responsáveis estão errados e a lei deve puni-los. Se tudo isso for comprovado, a ética foi zero, pois qualquer profissional que tenha feito um ato lesivo de forma consciente está ferindo a ética, ainda mais em se tratando da saúde pública.
JC - A população deve ficar apreensiva após os casos de intoxicação envolvendo o Celobar e o colírio, já noticiados? Efigênia - É bom que se faça a divulgação dos fatos para alertar a população, desde que isso não leve ao desespero completo. Não é preciso pânico, porque não existe um número relativamente alto de indivíduos que tenham sido afetado por essas substâncias. Possivelmente, a utilização desse medicamento já foi sustada, não está mais disponível para uso. Com a mídia na marcação, os órgãos de saúde já tomaram providências em relação a esses medicamentos. Mas é preciso estar atento sempre.
A afirmação é da professora Efigênia Queiroz de Santana, que fala dos perigos da medicação por conta própria
JC - Por que? Efigênia - Eu acho até bom que as pessoas ficassem apreensivas para evitar a automedicação. Essa prática é muito comum. Às vezes eu vou à farmácia e vejo alguém pedindo qualquer remédio que não precise de notificação ou de receita para a venda. A população pode comprar qualquer antibiótico, antiinflamatório, antiácido e quase toda a medicação gástrica. Só estão proibidos os psicotrópicos e os entorpecentes. O indivíduo pode comprar qualquer medicação que não esteja na portaria 344, que é determinada pela lei de número 6368, que é a lei antitóxico. Então, qualquer pessoa está sujeita a intoxicação por intermédio da automedicação.
JC - Quais os fatores que podem estimular uma pessoa a se automedicar? Efigênia - Muitas vezes, quem vai ao INSS é atendido em pé, às vezes por um médico que precisa atender outras 20 pessoas em pouco tempo. Então, a pessoa pode até desistir de realizar a consulta pública, ir até a farmácia e comprar um medicamento por conta própria. Há problemas em relação ao sistema de saúde em nível de informação. Quando as rádios, as redes de televisão e jornais começam a noticiar constantemente propagandas de medicamentos, ocorre a popularização de um determinado remédio que não é tão inócua. Não existe substância inócua, existem remédios com menos ou mais efeitos colaterais, dependendo do indivíduo e da própria substância.
JC - A senhora acredita que o conteúdo das bulas dos remédios é realmente interpretado pela maioria da população? Por que? Efigênia - Ver a bula do remédio é uma coisa útil, mas também é preocupante, porque se trata de uma linguagem que algumas pessoas não conhecem. Por exemplo: o que é emese? Até mesmo meu aluno, que está começando, pode não saber que emese e vômito são a mesma coisa. A bula é bem descritiva, trazendo informações sobre os componentes e os efeitos colaterais. Mas muitas vezes, para um leigo isso não vai adiantar muito.
JC - Quais as dicas para que a população possa ficar atenta em relação à utilização dos medicamentos? Efigênia - De um modo geral, as pessoas devem deixar de se automedicar. Quando uma pessoa tem uma dor de cabeça, é comum alguém oferecer um comprimido. Mas o mesmo remédio pode ser bom para alguns e veneno para outros, pode resolver o problema de um e não fazer nada para o outro. O paciente deve se policiar e escolher bem o profissional da saúde. As pessoas devem procurar a orientação certa se tiver dúvida, ao invés de usar o medicamento de forma aleatória. Deve entrar em contato com o médico ou se dirigir a uma farmácia e se informar com o farmacêutico.
JC - Qual é o papel desenvolvido pelo farmacêutico? Efigênia - O farmacêutico é o profissional capaz de fazer a pós-consulta e que realiza a orientação ao paciente quanto à medicação. Ele é o profissional da saúde que tem mais conhecimento em farmacologia, ou seja, ele estudou como a droga se movimenta no organismo (farmacodinâmica), a química farmacêutica, a química dos medicamentos, a técnica de preparo e a toxicologia. O farmacêutico não pode prescrever, mas pode orientar, avaliando as condições individuais do paciente. Mas a prática da pós-consulta nas farmácias, infelizmente, ainda não é muito utilizada no Brasil.