Nivaldo Barros Rios tem 21 anos e sete filhos para sustentar. Apesar de ser pedreiro, vive de “bicos”. Sua renda mensal não ultrapassa os R$ 100,00. Ele mora no Núcleo Fortunato Rocha Lima e figura na lista dos desempregados do bairro. A associação de moradores está estudando estratégias para colocar essa mão-de-obra no mercado de trabalho. Enquanto isso não acontece, a solidariedade vigora entre os desempregados, que se ajudam mutuamente.
Se existe uma lição que a população de modo geral tem que aprender com os moradores do Fortunato Rocha Lima é a solidariedade. Considerados miseráveis, eles são “doutores” em matéria de dividir o pouco que têm com aqueles que estão em situação ainda pior.
A prática de fazer empréstimos “por porção”, ou “de canequinha” como eles dizem, é muito usual entre essas pessoas. Nivaldo sabe bem o que é isso. “Estou desempregado há um ano e não tenho vergonha de pedir, porque quando posso, atendo as necessidades dos meus vizinhos. Procuro ajudar para não me sentir diminuído quando preciso.”
A devolução do empréstimo é ponto de honra para o pedreiro. “Eu empresto arroz, feijão, o que precisar. O empréstimo é feito em pequenas porções e faço questão de devolver. Pode até demorar, mas devolvo”, afirma.
Ele explica que na atual situação conta até com a ajuda dos filhos. “Eles pegam o ônibus e passam embaixo da roleta. Vão direto para a Zona Sul, onde os moradores sempre ajudam. Eles ganham leite, arroz e feijão.”
Mas a solidariedade entre eles não fica só no campo material. “Já pensei em partir para uma vida errada. Fico nervoso quando as crianças querem comer e o armário está vazio. O que me segura ainda é a solidariedade dos vizinhos. Eles dão uma força moral e mantêm a gente no caminho do bem.”
O desempregado lembra que a alimentação básica da família tem sido arroz e feijão. “O leite eu tenho comprado fiado, mas está difícil pagar.”
Na ânsia de garantir o leite das crianças, Rios já tentou várias alternativas. “Comecei a vender produtos de limpeza, mas todo mundo quer comprar fiado. Depois não paga e eu fico em dívida com a empresa fornecedora.”
Ele afirma estar disposto a fazer qualquer coisa. “Fui catar papel e o dono dos carrinhos cobra um quilo do produto para emprestar o carrinho. Se eu conseguir catar 20 quilos de papel, ele paga só 19 quilos porque usei o carrinho dele. O preço do quilo é R$ 0,09.”
O maior salário já recebido pelo pedreiro foi de R$ 182,00. “Eu morava em Ubirajara e trabalhava na colheita de laranja. Fiquei doente por causa do veneno que eles colocam na fruta. Tive que vir embora”, conta.
Para ele, o maior empecilho encontrado no mercado de trabalho é o preconceito. “Já ouvi todo tipo de desculpa quando falo que moro no Fortunato. As pessoas acham que aqui só mora bandido. Isso não é verdade.”
Na opinião dele, a população não pode generalizar. “De 100 moradores, um pode não prestar, mas as pessoas generalizam e pensam que nenhum presta, que são todos vagabundos”, lamenta.
Em busca de ajuda
O presidente da associação de moradores do bairro, Arnaldo de Jesus Souza, está procurando ajuda. “A situação é muito grave, tem muita gente passando necessidades básicas”, explica. O desemprego, na opinião dele, desencadeia uma série de outros problemas, como doenças. “Uma criança que estava desnutrida morreu aqui no bairro.”
A discussão em torno do desemprego conta com a ajuda dos universitários da Unesp. “Nos finais de semana, a gente se reúne para traçar estratégias que possam auxiliar as famílias. Ainda não conseguimos encontrar soluções que minimizem a questão a curto prazo. Temos várias idéias, mas faltam recursos financeiros para pôr em prática”, diz Souza.
Uma das idéias do presidente da associação é profissionalizar os jovens. “Temos um barracão grande onde poderiam ser desenvolvidos cursos de curta duração que habilitassem os jovens para o mercado de trabalho. Mas para poder usar o barracão é necessário construir quatro banheiros, dois masculinos e dois femininos. Nós não temos recursos para isso.”
Souza acredita que metade dos desempregados do bairro faz parte da lista da mão-de-obra desqualificada. “O desemprego também atinge a mão-de-obra qualificada, mas em menor proporção”, arrisca.
O presidente da associação acha que, através de algumas parcerias com as iniciativas privada e pública, parte do problema seria resolvido. “Pretendemos firmar parcerias com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Serviço Social da Indústria (Sesi), e também com escolas de cabeleireiros, informática e outras que pudessem, a curto prazo, habilitar os moradores para o mercado de trabalho.”
Souza calcula que no bairro existam cerca de 1.200 desempregados. “Deste total, metade é do sexo masculino. Por isso, precisamos de profissões para ambos os sexos.”
Ele sugere, inclusive, trabalhos que não exijam muitas habilidades. “Tínhamos um serviço de reciclagem no bairro que sustentava muitas famílias. Queremos implantar novamente esse tipo de trabalho.”
Para a construção dos banheiros, o presidente da associação garante a mão-de-obra. “Se alguma construtora doasse o material, nós faríamos os banheiros.”
Círculo vicioso
O desemprego acarreta uma série de problemas para a população do Fortunato Rocha Lima, avalia o presidente da associação de moradores do bairro, Arnaldo de Jesus Souza. Segundo ele, o desemprego obriga os moradores a se alimentar de forma inadequada, causando problemas de saúde. “As pessoas se alimentam mal e sofrem de várias doenças. Tomam o remédio, mas não se alimentam e demoram a se curar.”
Como exemplo, ele cita a situação de uma criança de dois meses enterrada recentemente. “Ela ficou doente e não reagiu, porque estava subnutrida. Foi levada ao médico, mas morreu.”
Souza acredita que a mudança da unidade de saúde do núcleo 9 de julho prejudicou o atendimento médico aos moradores. “O núcleo é no Santa Edwirges. Além de ficar longe, tem poucos médicos atendendo. Já fizemos um abaixo-assinado com 1.300 assinaturas pedindo a volta do atendimento no 9 de julho.”