Regional

Divididas, aldeias buscam auto-sustento

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Avaí - De um lado a cultura e os costumes indígenas. Do outro, as marcas do chamado “mundo-branco-civilizado”. É na fronteira dessas duas realidades que os índios das aldeias de Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru) sobrevivem hoje e tentam encontrar saídas para o desenvolvimento e a auto-sustentação.

Nessa busca por novas alternativas, recentemente, as terras de Araribá, antes formadas apenas por duas aldeias, de terenas e guaranis, se desmembraram dando origem a outras três comunidades. No total, hoje são cinco aldeias: a antiga Kopenoty e Nimuendaju e as novas Pyhau, Ekeruá e Tereguá.

Consultados pela reportagem, líderes indígenas negam a idéia de ruptura, afirmando que o processo de divisão das aldeias, iniciado em agosto do ano passado, teve o objetivo de racionalizar o desenvolvimento da agricultura e propiciar melhores condições de sobrevivência das comunidades.

“Os tempos são outros”, avalia o cacique Jazoni de Camilo, 66 anos. “Antigamente quando tinha mato, nós tínhamos mel, frutas, caça, pesca. Hoje em dia não tem mais isso aí. A agricultura é um meio que a gente encontrou de conseguir sobreviver sem trabalhar para os outros”, explica.

Segundo ele, a divisão também teve por objetivo facilitar a administração dos grupos, que sofrem com a falta de verbas e sérias carências de infra-estrutura.

Como é o caso da nova aldeia de Pyhau, formada por 11 famílias guaranis.

Para o cacique Reginaldo Marcoline, 30 anos, a separação das aldeias trouxe mais espaço para as famílias. “Essa foi uma forma de melhorar a vida da gente. Não porque a gente tem briga, inclusive muitos são parentes. Esse foi um acordo para fazermos os projetos que temos na cabeça. Com os grupos menores, a gente tem mais condições de se reestruturar.” Atualmente, os guaranis de Pyhau plantam no novo espaço mandioca, abóbora, batata e batata-doce.

O desenvolvimento da agricultura tem sido a tônica das aldeias para driblar as dificuldades, desde o ano passado. Na Ekeruá, o projeto, ainda modesto, é motivo de esperança para a população local.

Segundo o cacique Jazoni, inicialmente as plantações de batata, mandioca, arroz e feijão têm atendido apenas as famílias da própria comunidade. “Roça grande nós não temos ainda força para desenvolver, porque nós estamos sem recursos”, explica.

Entretanto a intenção, segundo o cacique, é que esse plantio de subsistência cresça e extrapole as fronteiras da comunidade. Como já vem ocorrendo com a aldeia Kopenoty, que possui excedente para comercialização.

Segundo o chefe do posto, Edenilson Sebastião, o resultado da plantação, além de suprir as necessidades da população de Kopenoty, que chega a 220 pessoas, tem sido comercializado para o Ceasa de Bauru. Atualmente, os índios estão colhendo a safra de mandioca, abobrinha e milho e já possuem inclusive uma cooperativa familiar.

“O objetivo é conseguir produtos de qualidade para competir com o mercado lá fora”, explica.

Entretanto, Sebastião afirma que a verba repassada pelo governo federal às aldeias, através da Fundação Nacional do Índio (Funai), tem sido insuficiente. A última, no valor R$ 2,5 mil, foi destinada para suprir toda a demanda das 48 famílias de Kopenoty. “O governo federal tem que incentivar esse tipo de trabalho, porque os índios não querem cesta básica, assistencialismo, eles querem condições de se tornar independentes”, afirma o chefe de posto.

Mulheres

Recentemente, o primeiro projeto agrícola direcionado às mulheres terena e guarani foi aprovado em Brasília e começará a ser desenvolvido em Araribá. Os recursos para o projeto, no valor de R$ 12 mil, foram conquistados, segundo a terena Jupira Manoel Sobrinho, através da embaixada da Nova Zelândia e beneficiará as aldeias de Kopenoty, Pyhau e Tereguá.

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Divisão

Segundo o cacique Jazoni de Camilo, que está nas terras de Araribá há mais de 60 anos, é natural dentro da tradição indígena que uma aldeia se divida, e dê origem a grupos menores.

“O índio é assim: sempre ele fica num grupo, quando ele vai espichando ele fala: aqui não está bom, vamos mudar para outro canto. É uma tradição, quando vai crescendo, a população vai para outro canto.”

Jazoni afirma que a Funai não interferiu no processo de desmembramento das aldeias. “Nós que resolvemos passar para cá e procurar melhorar. Já existia uma tendência de formar outros grupos”, afirma.

A última aldeia a nascer dentro desse processo foi a de Tereguá, no final do ano passado, composta por índios terenas e guaranis. Das três novas comunidades, foi a primeira a conquistar energia elétrica. Atualmente, as aldeias de Kopenoty e Nimuendaju ainda aguardam o recurso.

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História de Araribá

Segundo o cacique Jazoni, os primeiros índios a habitarem as terras de Araribá foram os guaranis, que chegaram no local em 1925, provenientes da região de Itaporanga (SP).

Os terenas vieram do Estado de Mato Grosso em 1932. No início, segundo Jazoni, as duas etnias conviviam na mesma aldeia, mas cada qual com o seu cacique. Entretanto com o crescimento da população, terenas e guaranis se separaram em duas aldeias, processo que ocorreu há cerca de 50 anos.

“Vieram bastante índios e começou a não dar certo a divisão dos trabalhos”, afirma.

Apesar disso, o cacique explica que mesmo com a separação das aldeias, as etnias sempre conviveram pacificamente.

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