Outra peculiaridade da vida nos bairros rurais é a amizade entre todos os moradores da comunidade. “Aqui é um paraíso. Todos são amigos”, diz a moradora Genozi José Campos, 40 anos.
Ela conta que, se uma pessoa no bairro fica doente, todos colaboram e prestam ajuda. “É uma família”, afirma Genozi, que ajuda o marido na horta e três vezes por semana trabalha como diarista em Bauru.
“Não tem mais serviço de roça em Santa Isabel. Agora é só gado e cana. Se tivesse, eu ficaria trabalhando na roça. Eu gosto”, revela.
A trabalhadora se considera caipira. “A gente não tem muita etiqueta. Se eu for andar de salto, depois de dois passos eu estou no chão. Eu gosto de ser caipira”, reforça.
Em Santa Isabel, segundo Genozi, as pessoas não se preocupam com ladrão ou trânsito. “Dá para deixar todas as roupas no varal”, conta.
O aposentado Francisco Pavanelo, 76 anos, trabalhou durante parte de sua vida em um sítio, com serviços gerais, e atualmente mora em uma casa num bairro rural de Bauru. Ele tem filhos na cidade, mas gosta de viver na comunidade rural porque está entre conhecidos.
“Todas as pessoas no bairro mexem e brincam comigo. Todo mundo me conhece. Tudo aqui é um sossego. O ar aqui é muito bom. À noite, não se escuta barulho. A gente deita e dorme tranqüilo”, afirma.
Quando visita os filhos em Bauru, Pavanelo sente falta do ambiente rural. “Não vejo a hora de vir embora. Na minha casa, eu saio de manhã para tomar um ar e caminhar depois do café”, conta o aposentado.
Tez
Quem olha para Jackson Sampaio, 34 anos, vê em sua face a expressão de tranqüilidade de quem vive sem grandes preocupações. Ele sempre viveu e trabalhou na área rural e não troca seu estilo de vida por nada. “De jeito nenhum. Nunca na vida moraria na cidade”, salienta.
Ele confirma o que todos os entrevistados pelo JC nos Bairros disseram. “O pessoal aqui é tranqüilo. Ninguém tem discussão com ninguém. Nós assistimos jogos de futebol e de vez em quando vamos a rodeio e ao forró no barracão da praça.”
Sampaio defende com fervor a vida dos bairros rurais. “As crianças podem brincar na rua a qualquer horário. Nós temos horta, galinha, porco. Na cidade não dá para ter criação. Eu não trocaria isso por cidade nenhuma”, salienta.
Arnaldo Luiz dos Santos Sobral destaca a união das pessoas. “O povo aqui é um povo unido. Não é um povo bagunceiro. São todos de família”, diz.
A receptividade também é diferente. “Não é como Bauru, que para receber a pessoa tem que perguntar quem ela é”, acrescenta Arnaldo.
José Carlos Santos Sobral, 36 anos, considera a comunidade uma grande família. “Todos se conhecem. Um vai na casa do outro”, expõe.
Quando aparecem pessoas estranhas nas redondezas, José fica de olho. “Prestamos atenção para ver o que a pessoa quer”, revela.
Levando uma vida simples, Arnaldo afirma que é feliz na comunidade rural. “Se dá vontade de comer, tem pé de laranja, mandioca, abacate, verdura. Tudo é do sítio. Tenho tudo o que eu queria”, diz o trabalhador.
Adilson Costa, 76 anos, morador de bairro rural, é mais um amante do campo. “Amo minha vida do jeito que estou. Sou feliz.”
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Mudanças
Aos 78 anos de idade, Maria da Graça Fernandes nasceu e morou durante toda a vida em Santa Isabel. Ela acompanhou as mudanças que o bairro sofreu ao longo dos anos.
Maria conta que anteriormente, quando não existia nem praça na comunidade, havia mais pessoas. “Tinha mais coisas de ver. Tinha muita fazenda, cafezal”, afirma.
Hoje, o bairro conta apenas com um bar. Não há mais as “vendas”, farmácia, nem padaria. As compras são feitas em Bauru. “O pessoal comprava tudo aqui. O armazém tinha de tudo. Tinha dois mercados, padaria, açougue, farmácia”, relembra.
Aos fins de semana, os moradores de sítio iam até o bairro (de carroça!) para buscar mantimentos. “Antes era tudo de saco grande, para o mês inteiro. De uns temos para cá, começaram a vender de quilinho ou de cinco quilos”, compara.
No lazer também havia mais opções em Santa Isabel. “Quando eu era moça, eu dançava carnaval duas noites aqui. Tinha festa direto. Agora não tem mais nada”, lamenta.
Maria da Graça fala também sobre o hábito de economizar. “O povo não juntava dinheiro de jeito nenhum. Era fazer as coisas para comer”, explica.
Lourdes Carrara Prieto, 68 anos, afirma que antes havia mais vendas, onde todos faziam suas compras em Tibiriçá. Atualmente, a maioria recorre aos supermercados de Bauru. “Hoje, restaram apenas duas vendas”, diz.
O esposo, João Prieto, 73 anos, critica o estado da estrada que dá acesso a Tibiriçá. “Tibiriçá é muito mal administrada. A pista de acesso é ruim”, reclama.
Apesar disso, afirma que não moraria na cidade. “Quando vou para Bauru, tenho vontade de vir embora. Minha distração é cuidar do sítio, dos animais, das plantas.”