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Laranja mecânica


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O ser humano está perdendo, sistematicamente, sua capacidade de sonhar. Não estou falando dos sonhos alienantes, que tolhem a consciência e turvam o bom-senso, mas daqueles que nos motivam, que nos elevam, que nos fazem bem sem causar estorvo ou infelicidade ao semelhante. A exposição sistemática e contínua a estímulos visuais está limitando nossa capacidade de abstração, induzindo metas e criando ícones, cobrando resultados, como se a raça humana houvesse sido transformada numa imensa linha de montagem ou num grande rebanho. Vemos tudo menos a nós mesmos! Compre isso! Use aquilo! Faça como fulano! Quem é inteligente tem! Fique mais bonita! A moda é...! Converta-se! E tantas outras mensagens ostensivas, não precisam ser subliminares para, implicitamente, induzirem: Condicione-se! Vicie-se! Submeta-se! E, sobretudo, não pense!

Num mundo em que a imagem e os estímulos sensoriais são cientificamente utilizados, em nível quase hipnótico, cada vez mais as pessoas perdem sua identidade em função da necessidade de serem notadas, justificadas e aceitas, não importando o quão ridículas tenham que se apresentar. O que era sinônimo de liberdade e superação de tabus há algumas décadas, hoje é um negócio rentável nas mãos de empresários inescrupulosos. Tudo tem que ser fisicamente sentido, inclusive na própria carne, não importa o quão duradouro e doloroso será o efeito da moda da vez. O que importa é demonstrar visualmente sua “opinião de momento”.

Pensa-se menos, escreve-se menos, lê-se menos e tudo o que é valorizado pela sociedade atual tende a tornar-se descartável e superficial, inclusive a vida. Os sonhos foram substituídos por exórdios neurolinguísticos; as metas existenciais são estabelecidas em função de interesses corporativos e, se não atingidas, frustram; se alcançadas, não realizam. Lazer, sexo e até religião estão sendo, progressivamente, transformados em compensação para um cotidiano de ansiedade, seja pela falta de perspectiva, seja pela competição predatória.

O modelo atual faz com que o ser humano deixe de buscar o autoconhecimento e a espiritualidade para acreditar que a solução de seus problemas e ansiedades pode ser comprada, o que faz a alegria dos autores de livros esotéricos e de auto-ajuda, empresários da “fé” e da indústria farmacêutica; ou usurpada, com a violência dos videogames, do fanatismo e dos filmes de ação. O indivíduo perde sua condição para transformar-se num terminal de uma imensa rede, reagindo indutivamente a estímulos externos; e para isso ele tem que estar constantemente “plugado”, estimulado e condicionado qual uma “laranja mecânica”.

Precisamos ter menos ícones, menos líderes, menos aparências de nossas atitudes e mais, muito mais, amor-próprio, respeito ao próximo e fé. Senão, continuaremos a ser encarados pelos “mais iguais” como parte de um imenso e manso rebanho, cujo único destino é ser domesticado, montado, conduzido, tosquiado e, inevitavelmente, abatido ou sacrificado por fatores de mercado. É preciso reaprender a sonhar, a pensar, a falar mais que em monossílabos, a ser mais do que parecer e a realizar que, apesar de sermos todos feitos da mesma matéria, o espírito nos diferencia e nos torna únicos e igualmente protagonistas no espetáculo divino que é a Humanidade. (O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro e professor universitário)

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