Ser dono de um automóvel é algo que desperta os mais variados sentimentos nas pessoas. O que dizer então de um veículo adquirido zero quilômetro há mais de cinco décadas e que até hoje ocupa uma vaga na garagem de uma residência? Depois de todo esse período, nada mais justo do que considerá-lo como um “legítimo” membro da família.
Pois é exatamente este o pensamento nutrido pelo mecânico bauruense Ruy Barbosa da Silva e seus irmãos sobre o 170 DA Berlinda, um raro modelo de 1951 da Mercedes-Benz.
Também não é para menos. O veículo é companheiro inseparável de Ruy e seus “brothers” desde que seu pai, Ayresmani Barbosa da Silva, já falecido, comprou-o “zerinho”, em 1951, em uma importadora na capital paulista.
De lá para cá, Ruy conta que o automóvel sempre foi o “faz-tudo” para resolver os problemas de locomoção da família. “Ele era pau pra toda obra e já carregou uma infinidade de coisas até nosso sítio. E imagine o que era fazer isso naquela época, quando nem estrada asfaltada existia”, lembra ele, ressaltando a valentia do carro.
Atualmente, o mecânico conta que o “Mercedinho” continua rodando muito, principalmente para os passeios dominicais. Ele só não se “aventura” mais nas estradas com o Berlinda. “Mas o veículo já viajou pra cima e pra baixo com a gente”, recorda.
Ofertas irrecusáveis para vendê-lo não faltaram durante esse tempo. Ruy revela que um fazendeiro chegou a procurar 20 vezes por seu pai a fim de tentar convencê-lo, sem sucesso, a comercializá-lo.
Em outra ocasião, um delegado de polícia seguiu e parou Ayresmani com o mesmo objetivo. “Meu pai, fanático pelo carro que ele chamava de alemãozinho, contou ter perguntado onde ele havia visto que estava escrito vende-se”, afirma o mecânico, rindo.
Seguindo o exemplo de seu pai, Ruy também garante que não se desfaz do veículo “nem por um milhão de dólares”. “Nem adianta insistir. Ele não tem preço, pois tem valor muito mais afetivo do que comercial. Por isso, não dá para vendê-lo”, afirma o mecânico.
Mas há, ainda, outras provas que os integrantes da família tornaram-se fãs ardorosos da antiga linha Mercedes. Enquanto Ruy já foi dono de um modelo 170 S a gasolina de 1950, um outro irmão, chamado Rutherford, é o feliz proprietário de um 250 S automático. “Isso sem contar em uma 219 e uma 230 S rabo-de-peixe que já tivemos também”, acrescenta o mecânico.
“Cinqüentão” conservado
Apesar de já ser um “cinqüentão”, o 170 DA impressiona pelo bom estado de conservação. Por fora, além da tonalidade escura da cor azul, que substituiu a original verde-oliva, o que mais chama a atenção é o estilo das linhas do carro.
A começar pela dianteira e o motor, um quatro cilindros a diesel capaz de gerar 42 cavalos de potência, em forma de “charuto” com as venezianas de refrigeração. Nela também se destacam os faróis redondos posicionados à frente de uma enorme grade, que ostenta as famosas “estrelas” da montadora de origem alemã, e atrás dos faróis de milha adaptados pelo mecânico.
Ruy destaca, ainda, que o motor possui uma particularidade especial que o diferenciava dos demais modelos da época: um sistema que, de uma só vez, lubrifica a embreagem, a suspensão e o terminal de direção sem a necessidade de parar o veículo.
Além disso, completam o visual externo os pneus calçados em aros 16 e as setas de direção colocadas por Ruy em substituição às “bananinhas”, acessório mundialmente famoso que também equipou os Fuscas.
No interior, o veículo não foge à regra ao possuir duas das características mais marcantes da Mercedes-Benz: classe e conforto. Para isso, basta sentar em seu enorme banco traseiro e admirar o painel do modelo. Este é dotado de velocímetro, marcador de pressão do óleo e do combustível, um relógio de corda, um cinzeiro e um acendedor de cigarros.
Outra curiosidade é a ignição. Para dar a partida no automóvel, alimentado por duas baterias localizadas embaixo do banco do motorista, é necessário acionar um sistema de aquecimento que avisa, através de uma resistência, quando ele está pronto para acionar o motor.
Por fim, a traseira. Esta é constituída por um porta-malas que, quando aberto, carrega consigo na tampa o estepe e exibe a chave de roda e o macaco ainda originais do veículo. “Isso demonstra que ele já era um carro inteligente para a época”, encerra Ruy.
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Perfil
Nome Ruy Barbosa da Silva
Idade 53 anos
Profissão Mecânico
Lugar bonito Itiquira (GO)
Hobby Curtir a natureza e as plantas
Time do coração Palmeiras
Para quem você nunca daria carona em seu Mercedes?
“O ex-prefeito Antonio Izzo Filho.”
E quem você faria questão de levar como passageiro?
“O empresário Alexandre Quaggio por sua vocação empreendedora.”
O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?
“A falta de atenção e o egoísmo dos motoristas, que dirigem como se existissem apenas eles no trânsito. É lamentável cada um guiar olhando apenas para o seu umbigo e não estar nem aí para os demais, pois é a nossa vida que está em risco. O pior é que muitos ainda acham tal comportamento normal. Para mim, isso é violência.”
Que nota você daria aos motoristas bauruenses?
“Na média, seis, pois vejo cada barbaridade ocorrendo por aí.”