Um bom exemplo dos “santos vizinhos”, que estão sempre preparados para abrir as portas da casa a qualquer hora do dia ou da noite para ajudar os moradores próximos, é Adelaide Moreira André, do Parque Vista Alegre. Ela é uma espécie de conselheira da comunidade e é procurada diariamente para ajudar a solucionar problemas.
A manutenção de um centro espírita em casa e o trabalho com jogo de búzios colaboraram com a popularidade de Adelaide, que adora receber as pessoas em sua residência.
“É uma delícia. É muito gostoso. Não é por querer ser boa samaritana”, diz. “Eu acho que viver em comunidade é isso”, acrescenta.
Confira a seguir trechos da entrevista concedida ao JC nos Bairros.
Jornal da Cidade - As pessoas do bairro te procuram muito? Adelaide Moreira André - Procuram. Até para arrumar passe para viajar eles procuram. Nesta semana foram três. Se eu tenho na hora, eu dou. Se eu não tenho, a gente procura arrumar uma carona para a pessoa. Agora eu estou sem carro, mas antigamente eu até levava. É uma delícia. É muito gostoso. Não é por querer ser boa samaritana. É que eu já passei por isso.
JC - As pessoas vão até sua casa? Adelaide - No bairro, todo mundo vem à casa da dona Adelaide e às festinhas da rua. Tem vizinhos que falam com a dona Adelaide por telefone para não serem vistos entrando no centro espírita.
JC - A senhora também atua como conselheira do bairro? Adelaide - As pessoas vêm e falam que estão com um problemão em casa e não conseguem resolver. É o filho que está viciado, por exemplo. Eu acho que viver em comunidade é isso.
JC - Aparecem os mais diversos tipos de problemas? Adelaide - Os piores. Teve um menino que baleou outro no Parque Vista Alegre. Ele era viciado. A família fez de tudo, mas não deu certo. Eu fui lá, conversei com ele um dia, dois dias, três dias... Depois, ele voltou para a escola, terminou o terceiro colegial. Está trabalhando numa oficina mecânica e é uma gracinha. Outros chegam falando que fulano de tal está no Cadeião. Eu vou lá, converso, falo com as pessoas. Para mim, elas têm a coragem de contar a verdade.
JC - Não é só o pessoal do bairro que te procura? Adelaide - Qualquer pessoa. De qualquer lugar.
JC - Como a senhora ficou tão conhecida? Adelaide - Eu tenho 40 anos de santo. Para ter 40 anos de santo, tem que ter federação. Então, eu viajo muito. Eu arrumo filhos de criação em todos os lugares para os quais vou. Tem muita gente que vem à minha casa para conversar. Tem muita gente que vem para jogar búzios. Aqui eu faço trabalho aberto às sextas-feiras à noite e não cobro nada.
JC - A senhora também recebe casos relacionados à religião? Adelaide - Muitas vezes eu recebo ligação aqui de madrugada de pessoas que falam que a filha está com “encosto” e não sabem o que fazer. Têm vergonha de chamar o pastor e ele saber que ela está nessas condições. Outras pessoas vêm falar sobre orientação sexual.
JC - A senhora gosta de ser tão procurada? Adelaide - Eu gosto. Eu não gosto da minha casa quieta. Não gosto de silêncio. Tem vezes que a casa está tão cheia que eu encho de colchões a sala. É muito bom. Te anima. Eu já tive dois derrames. Cada vez que eu saro de algum problema de saúde eu penso que é mais uma oportunidade e começo a correr atrás.
JC - A senhora já teve algum tipo de briga com vizinho? Adelaide - Não. Nunca briguei com nenhum vizinho. Todos me respeitam. Como eu viajo muito, eles ficam de olho na Érica (filha). Eles tomam conta da Érica para mim. Eu ligo na casa do vizinho e falo que a Érica está sozinha. Eles falam para eu não me preocupar. Eu conheço todos, mas não vou na casa de ninguém. Eles ligam quando precisam de alguma coisa. Eu encontro eles no bar da frente e no “seu” Mauro, da oficina, que é evangélico.
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Bons samaritanos
Quem procura acha. O JC nos Bairros percorreu bairros de Bauru e sem dificuldades encontrou mais exemplos de “bons samaritanos”.
A casa de Aparecida Brito Caleda, do Parque Jaraguá, está sempre repleta de pessoas. Ela consegue doações de cestas básicas e outros produtos para seus vizinhos de bairro e faz “vaquinha” para comprar remédios.
“As pessoas nos procuram para diversas coisas. Pedir café, levar ofício na prefeitura, arrumar emprego. Eu faço o que eu posso. Me sinto muito bem ajudando as pessoas. Procuro ajudar, mas está muito complicado. Ninguém tem sobrando para dar”, diz.
Quando tinha carro, as pessoas pediam a Cidinha (como é conhecida) carona para ir ao hospital a qualquer hora do dia.
Já Carlos (nome fictício), 65 anos, além de emprestar ferramentas aos vizinhos para fazer reparos em casa, é procurado para tratar as pessoas através da medicina oriental. “Me sinto bem quando consigo ajudar as pessoas. É uma realização. Um no bairro recomenda para o outro”, conta.
Carlos mora há 30 anos no bairro e tem bom relacionamento com a vizinhança. “Não temos nenhuma discórdia.”
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Diversão
Vizinhos também são procurados em bons momentos - não apenas quando há problemas. Mônica Rodrigues Batista, por exemplo, é referência na comunidade com a qual convive devido à dança.
Ela é integrante do grupo de dança de samba rock “Desamarre o Nó” e com freqüência é procurada para dar dicas sobre eventos noturnos. “A gente sai muito para dançar. O pessoal procura muito a gente para saber onde tem, onde não tem dança”, diz Mônica.
Ela mora no Parque das Camélias, mas é solicitada por jovens de todos os lugares - Vila Falcão, Núcleo Octávio Rasi, Jardim Ouro Verde, Parque Vista Alegre.
“Uns rapazes vão abrir uma casa de samba rock em Bauru e me procuraram. Faz bem ser assim. Eu adoro”, confessa.