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Greenpeace lança guia de transgênicos

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 5 min

Seis integrantes da organização não-governamental (ONG) Greenpeace estiveram ontem no Bauru Shopping distribuindo cerca de 1.400 cartilhas com uma lista de produtos que contêm ingredientes transgênicos. O objetivo do grupo foi alertar a população contra possíveis riscos causados pelos alimentos modificados geneticamente em laboratório.

A engenheira agrônoma e ambientalista Tatiana Carvalho, que faz parte da ONG, afirma que o principal problema dos transgênicos são os danos provocados ao meio ambiente. “Entre eles, está a perda da biodiversidade, devido à poluição genética, e o aumento do uso de agrotóxico, que é extramamente danoso para a água, o solo e os próprios agricultores”, opina.

A cartilha, que está na segunda edição, divide os alimentos fabricados por 80 indústrias em duas listas. “Na verde, estão os fabricados por 26 empresas que já adotam um controle para garantir que o alimento não seja transgênico. Os demais ficam na vermelha”, revela.

O lançamento da cartilha foi no dia 10 de maio, em São Paulo. Desde então, o Greenpeace esteve em Porto Alegre, Salvador e São José do Rio Preto. Depois de Bauru, o grupo segue para outras cidades do Interior Paulista, como Campinas, Ribeirão Preto e Presidente Prudente.

Para ilustrar melhor o que diz o guia, os ambientalistas colocaram toalhas nas cores verde e vermelha sobre uma mesa e depositaram sobre elas os alimentos relacionados nas duas listas. Dois integrantes do grupo permaneceram ao lado das mercadorias com os olhos vendados. “Eles estão protestando em nome dos consumidores que consomem alimentos transgênicos sem saber”, explica Tatiana.

Se o objetivo dos ambientalistas foi chamar a atenção, o protesto surtiu efeito. Várias pessoas se aproximaram da mesa para conferir os produtos de perto. A quantidade de mercadorias expostas causou surpresa a quem passava pelo local. “Não imaginava que fossem tantas”, conta a professora aposentada Sueli Azuaga.

O estudante Guilherme Del Prete, de 11 anos, também pediu informações a um dos monitores. Entre os cerca de 50 alimentos que estavam na parte vermelha da mesa, diz que não esperava encontrar o danone. Ele aprovou a distribuição das cartilhas. “Não sei ao certo o que são os transgênicos e achei legal a idéia deles”, declara.

Dois lados

O pastor Joselito Gomes, que levou um guia para ler em casa, diz que é preciso analisar os dois lados da questão. “É uma história controvertida e quero me aprofundar mais. Vou ver o que o Greenpeace está fazendo para ter uma posição mais fundamentada, porque a gente também ouve o outro lado e ele nos diz que não há problema nenhum em consumir esses produtos”, afirma.

Um dos representantes desse outro lado é o presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação de Agricultura do Estado de São Paulo, Maurício Lima Verde. “O americano só come alimentos transgênicos. Eles são o progresso da ciência”, defende.

Segundo ele, protestos como o do Greenpeace não surtem efeito. “Esse movimento vai cair no vazio. É só uma questão de tempo. Queiram eles ou não, vamos chegar lá, pois o avanço do transgênico é tão grande que existem alguns teóricos que afirmam que, daqui a algum tempo, ele vai substituir os medicamentos, pois determinados alimentos poderão conter insulina, por exemplo”, diz.

Lima Verde calcula que mais da metade da plantação de soja no Sul do País é transgênica. “O custo de produção é de 20% a 30% mais barato. Se o governo disser que não vai mais poder plantar, criará um problema econômico sério”, opina.

Ele também contesta as informações de que o consumidor pode ter problemas caso consuma os transgênicos. “A fiscalização aos danos à saúde que o americano faz não existe em lugar nenhum do mundo. Como é que eles aceitariam uma atividade dessa se ela fizesse mal?”, questiona. Lima Verde se refere ao fato dos Estados Unidos serem favoráveis ao cultivo deste tipo de produto.

Tatiana Carvalho, porém, não pensa da mesma forma. “O Greenpeace quer uma moratória que impeça o plantio, a comercialização e a importação de transgênicos até que sejam feitas avaliações suficientes de risco à saúde e ao meio ambiente”, afirma.

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Modificação

O alimento transgênico é aquele que contém qualquer ingrediente derivado de uma planta ou animal transgênico. O organismo se torna geneticamente modificado quando recebe genes de outra espécie e sofre alterações em seu código genético. O objetivo pode ser, por exemplo, tornar uma espécie vegetal resistente a determinadas doenças e mais produtiva.

Desde que começaram a ser cultivados, os transgênicos despertam polêmica entre os produtores, que defendem o plantio, e ambientalistas, que acusam a prática de ser nociva à natureza e até mesmo aos consumidores. Nenhum estudo feito até hoje, no entanto, conseguiu resolver cientificamente a questão. Não há riscos comprovados de danos à saúde, mas também não há nada que garanta que eles não façam mal.

No Brasil, o principal ingrediente transgênico utilizado na fabricação de alimentos é a soja. Embora a lesgislação atual impeça novos plantios, a comercialização da última safra foi garantida até o final de março de 2004 através da Medida Provisória (MP) nº 113, aprovada pelo Congresso Nacional em maio.

O tema chegou a ser discutido no mês passado durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros a Washington. Os Estados Unidos defenderam que a biotecnologia resulta em maiores colheitas, menores custos em insumos, avanços na área ambiental e novos mercados para os produtores rurais. Juntos, os dois países respondem por 77% da produção mundial.

Se nos Estados Unidos, os transgênicos são incentivados pelo governo, na Europa eles ainda sofrem sérias restrições. Há cinco anos, apenas 18 variedades de alimentos geneticamente modificados podem entrar no continentes.

Os defensores dos produtos transgênicos ganharam uma esperança no início do mês, quando o Parlamento Europeu aprovou novas normas para a rotulagem dos alimentos e sinalizou que pode suspender a moratória em breve.

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