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Desemprego e salário


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Mensalmente, o IBGE e a Fundação Seade com o Dieese publicam números que indicam uma alta constante da taxa de desemprego no Brasil.

Há quem diga que essas taxas não refletem a realidade, pois os números que as compõem são apenas os das grandes capitais. Mas a verdade é que a esmagadora maioria dos brasileiros está assustada com o desemprego e a queda do poder aquisitivo do salário.

O desemprego chegou, independente de metodologia, após seis meses de governo Lula, a patamares preocupantes. Segundo o IBGE, 12,8% da população economicamente ativa está desempregada. Segundo o sistema Dieese/Seade, 20,6% dos brasileiros estão desempregados ou sub-empregados. Na Grande São Paulo, esse contingente chega a 2 milhões de pessoas.

Os que têm emprego, além do temor de perdê-lo, vêm amargando há alguns anos um arrocho salarial de fazer inveja a argentinos e uruguaios. De maio de 2002 a maio de 2003, a renda média do brasileiro caiu 14,7%. Foram 16 meses de queda contínua dos salários frente à inflação.

A classe média, classificada pelos institutos de pesquisas como a de renda familiar entre R$ 1.158,00 e R$ 4.696,00, teve, de 1997 a 2002, uma queda do poder aquisitivo de 17%, dados do Instituto Ipsos-Marplan. Em 2003 parece que a trajetória não será diferente.

Esse empobrecimento reflete no desempenho de vários setores da economia. Tem-se a impressão que o País parou e aguarda uma definição de rumos do governo Lula. Ao que parece, o tal “espetáculo do crescimento”, anunciado para este julho, não virá tão cedo. As taxas de juros ainda estão muito altas e não estimulam investimentos. Na melhor das hipóteses, as taxas de desemprego tendem a manter-se estáveis, porém... nos “píncaros da glória”.

O arrocho salarial produzido pela política econômica neoliberal, iniciada no governo Fernando Henrique e mantida no de Lula, deverá agravar-se à medida em que forem sendo incorporados os novos reajustes das tarifas públicas. Para termos uma idéia como essas tarifas “comem” os salários, basta saber que de 1999 a 2002, período em que a inflação foi de 39,87% e o reajuste salarial médio de 33,1%, o gás de cozinha subiu 199,87%, a gasolina 138,81%, a energia 90,94% e o telefone 48,89% (dados do Cecon/Unicamp e IBGE).

O emprego e a renda estão na base dos inúmeros problemas que a sociedade brasileira enfrenta no momento. A violência é apenas um deles e mostra bem o quadro de tensões sociais do País. No concurso para gari, no Rio, para preencher 3.600 vagas, apareceram 134 mil candidatos. Os trabalhadores de baixa renda, que compõem as classes C, D e E, vão sendo comprimidos, cada vez mais, para a base da pirâmide, embora, diuturnamente, estejam nos discursos e nas boas intenções dos nossos governantes.

Na Roma antiga, os sacerdotes costumavam auscultar o canto e o vôo das aves para agourar o que viria pela frente. Sem querer provocar a ira desses sacerdotes, é necessário exercitarmos sobre o futuro da classe média. Sabemos que nem sempre ela está na vanguarda dos movimentos democráticos, mas é ela que, engajada, dá sustentação a eles. A proletarização da classe média não ajuda a consolidação democrática do País, ao contrário, compromete a sua estabilidade político-social.

O Brasil necessita que Lula seja mais Lula e menos Mr. da Silva, como desejam os banqueiros internacionais, para que possamos construir a nação socialmente justa que todos queremos. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-prefeito de Bauru, ex-deputado federal e ex-secretário de Estado da Agricultura)

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