Ibitinga – Em homenagem aos 30 anos da Feira do Bordado de Ibitinga (80 quilômetros a Nordeste de Bauru) e à inauguração do novo pavilhão de exposições, os organizadores do evento prepararam um túnel temático, cuja proposta é mostrar a trajetória do bordado da década de 40 até os dias atuais. O projeto, realizado pela Secretaria de Cultura, teve o apoio de alunos do curso universitário de turismo da cidade.
No local, estarão expostas máquinas de bordado, fotografias, publicações e cartazes das antigas feiras, além de peças de rara beleza e acabamento, bordadas em diferentes décadas, que foram resgatadas junto à população da cidade. “Tem peças aqui que são relíquias de família. As pessoas estão guardando para os netos e bisnetos”, conta uma das organizadoras do projeto Eléa Lorenzetti Bocca.
Essa é a primeira edição da feira que traz detalhes do passado da atividade em Ibitinga. O material da exposição começou a ser coletado desde o início do ano e organizado em ordem cronológica.
Segundo Eléa, o ponto de partida do projeto é a década de 40, período em que a atividade do bordado começou a se desenvolver na cidade. “Foi quando algumas bordadeiras começaram a ensinar o bordado. E a partir desse momento formaram-se os salões de bordado de Ibitinga”, conta.
A principais personagens desse passado são mulheres, entre elas a bordadeira Dioguina Sampaio e Marietta Macari, precursoras do bordado local.
A industrialização da atividade começou na década de 50, com a chegada do primeiro equipamento industrial. Antes todo o trabalho era feito em máquinas de pedal. “Depois surgiram as máquinas elétricas e hoje já existem as máquinas computadorizadas”, afirma Eléa.
Segundo ela, o auge do bordado de Ibitinga foi alcançado na décadas de 70 e 80. Em 1974 foi realizada a primeira feira na cidade e no ano seguinte o evento foi oficializado como festividade de interesse turístico, sendo batizada como Feira do Bordado de Ibitinga.
A partir da década de 90, o bordado começou a ceder lugar para a estamparia. “Até 80 ainda tinha um bordado forte, a partir de 90 partiu-se para a estamparia porque barateou o produto.”
Recentemente, a cidade viu a necessidade de resgatar a tradição do bordado, sendo o túnel temático um reflexo dessa iniciativa. “A função desse túnel é resgatar as origens do bordado. A intenção é que as pessoas olhem para isso e sintam vontade de começar a fazer novamente.”
Dentro dessa proposta, Eléa afirma que o próximo passo da cidade é a criação de um museu do bordado. “Acho que Ibitinga merece um museu como este. E nós temos muito material para isso”, conta.
Bordadeiras
Durante a feira, duas bordadeiras da cidade estarão no túnel temático mostrando ao público um pouco do ofício. Uma delas fará uso da antiga “maquininha” de pedal e a outra de um equipamento elétrico. “Nós queremos mostrar para o público como se borda, qual é o tempo que demora, como é feito. Porque eu acho que há um interesse nisso. O visitante não quer só olhar o bordado, ele quer saber como é feito também”, afirma.
____________________
Do pedal ao computador
Ibitinga - Da máquina de pedal aos modernos equipamentos computadorizados, que substituem o trabalho de várias bordadeiras, muita coisa mudou no cenário da produção do bordados em Ibitinga nas últimas décadas.
“Quando eu comecei no ramo, há 18 anos, o tecido era bordado naquela maquininha de bordar, zigui-zague. Aí veio a máquina industrial e hoje já existem máquinas computadorizadas com dez cabeças, que fazem o trabalho de várias bordadeiras”, descreve a fabricante Rita de Cássia Godoy.
Na fábrica de Godoy, as modestas máquinas elétricas foram perdendo espaço para equipamentos mais modernos, como a pantográfica, que produz o edredon matelado, e uma máquina industrial que fabrica 100 colchas ao dia.
Segundo os fabricantes, o processo de modernização do maquinário permitiu a padronização e produção em maior escala.
Entretanto, a evolução das máquinas também representou diminuição da mão-de obra. Godoy, que já chegou a ter 100 funcionários, hoje mantém 35 em sua empresa.
Apesar disso, os fabricantes ressaltam que o refinamento do trabalho realizado pelas bordadeiras continua sendo insubstituível. “As minhas melhores peças são bordadas nas máquinas pelas bordadeiras. As máquinas computadorizadas não podem improvisar. A bordadeira improvisa e cria em cima da peça. Quem quiser trabalhar com o bordado mais fino, necessariamente não tem como abandonar esse processo”, explica o fabricante Claisson Menegues.
____________________
Personagem
Maria Braga, 82 anos, é uma das bordadeiras mais antigas da cidade e importante personagem da história de Ibitinga. Ela foi a proprietária de uma das primeiras fábricas de bordado, inaugurada na década de 60.
Maria, que é de Mato Grosso do Sul, chegou em Ibitinga em 1955 com a família. “A gente era muito pobre. Era difícil criar os filhos e eu queria que meus filhos estudassem. Aí eu peguei firme no bordado. Eu vivi disso, construí minha vida e criei meus filhos com o trabalho do bordado”, afirma.
O espírito empreendedor levou Maria a ser a primeira mulher a transpor as fronteiras da cidade e comercializar o bordado no Paraná. A bordadeira também criou na época uma espécie de escola, onde ensinou o ofício a várias mulheres da cidade.
Ela, que participou da primeira feira de Ibitinga, em 1974, relembra com saudade desse período. “Eram bordados caprichados, cada participante fazia mais bonito que o outro para competir”, conta.
Maria dedicou cerca de 30 anos de sua vida ao bordado e ensinou o ofício para uma das filhas, que hoje continua no ramo e é dona de uma tradicional marca que leva o nome da família. Várias peças de Maria Braga podem ser conferidas na exposição do túnel temático.