Saúde

Terceira idade: é hora de curtir a vida

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 5 min

Andar de patins, de bicicleta motorizada, saltar de asa-delta e até mesmo de pára-quedas. Nem o céu é limite para essa turma da terceira idade que tem disposição de sobra para encarar as mais diversas atividades, incluindo esportes radicais.

Que o diga Vovó Nena, a pára-quedista de Marília (100 quilômetros de Bauru) que começou a saltar com mais de 70 anos e apagou 92 velinhas no último dia 21 de abril, repleta de felicidade e doses extras de adrenalina. Vovó Nena planejava pular no feriado de Tiradentes para comemorar do jeito que mais gosta toda a saúde que Deus lhe deu. Mas, dessa vez, por recomendação familiar, ficou no solo mesmo, comendo bolo e batendo palminhas.

Afinal, ela já faz parte do Guinness Book como a pára-quedista de maior idade do planeta e, entre outras “diabruras”, já teve experiências demais para carregar por séculos e séculos na lembrança.

A atividade na terceira idade é o que impulsiona a saúde física e mental desses jovens de cabelos brancos. Outro exemplo na área feminina vem de Dulce Turtelli, 80 anos.

Viúva, cansou de procurar companhia para viajar por esse mundão sem fim, depois de colocar até anúncio no JC procurando alguém como ela, ansiosa por aprender mais sobre outras culturas.

Comprou um pacote de viagem e partiu mundo afora. Sozinha, de Bauru ao Chile, de Bauru à Grécia, de Bauru à Itália e muitos outros cantos do mundo, sem medo de ser feliz.

Por várias vezes, comprou passagem do Expresso de Prata, desceu no Terminal da Barra Funda (em São Paulo), fez baldeação para o carro Airport, desceu no Aeroporto Internacional de Guarulhos, passou pelos procedimentos de praxe, incluindo a alfândega, e voou literalmente pelos ares.

Além de viajante inveterada, Dulce participa de muitas outras atividades e não cruza os braços quando o assunto é ajudar ao próximo. No dia da entrevista, estava atarefada porque se preparava para mais um encontro com as amigas da Associação Bauruense de Combate ao Câncer. É ainda voluntária da Sociedade de Reintegração e Reabilitação do Incapacitado (Sorri) e freqüentadora assídua da Sociedade Dante Alighieri.

Sua vitalidade é tamanha que cursou a universidade depois de todos os filhos terem se formado. Dulce é licenciada em Artes Plásticas.

Eletricidade a mil

O casal Airton e Iracema Comini tem disposição para dar e vender. São um exemplo de como a vida pode ser mesmo prazerosa na “melhor idade”.

Iracema cuida da casa sozinha, incluindo o cachorro de estimação que passou por duas cirurgias e hoje está se recuperando. “Ele saiu para namorar e voltou para casa todo machucado”, detalha.

Coordenados todos os afazeres, parte para o que mais gosta: freqüentar os cursos de ginástica, desenho e informática. Os dois primeiros na Universidade de São Paulo (USP) e o de computação bem longe de sua casa, na Instituição Toledo de Ensino (ITE), na Vila Falcão.

Pega o seu carro e atravessa ruas e avenidas numa boa. Está tão craque em todas essas áreas que navega sem problemas pela Internet, tem agilidade com pernas e braços e arrisca algumas pinceladas nas mais variadas nuances.

A energia de Iracema casa literalmente com a do marido, Airton, 77 anos. “Ele é terrível. Não consegue ficar parado. Ontem mesmo consertou duas máquinas de costura velhíssimas, daquelas que a gente não acreditava que havia conserto. Deixou as duas funcionando. E sempre acaba me levando junto.”

Airton, que já foi dono de fábrica de sapatos, alfaiate, marceneiro e entregador de bebidas de uma pequena indústria do pai, tem agilidade com as mãos e com a cabeça. Conserta tudo que lhe vem às mãos, acode vizinhos e familiares em seus apuros, anda de bicicleta motorizada pelas ruas da cidade e ajuda os irmãos num asilo de Piratininga.

O dia é curto para ele, que nunca teve dificuldades para se equilibrar em patins, bicicletas e motos. Acorda às 6h e já vai arrumando coisas para fazer. Se picham o muro, lá vai ele repintar; se o chamam para uma viagem, é o primeiro a entrar no carro. Compra, conserta e revende carros, trabalha como corretor de imóveis e está sempre com a cabecinha funcionando, pensando no que fazer. Superativo. Sem tempo para cadeira de balanço e para pensar que a vida poderia ter sido melhor. Pois ela é, dependendo de como é encarada.

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O céu não é o limite

Ela sempre gostou das coisas do alto. Não dorme uma noite sequer sem olhar para o céu e se encantar com a lua e o brilho das estrelas.

Talvez essa paixão explique o magnetismo que o pára-quedismo exerce em Encarnacion Olivar Garcia Pacheco, a Vovó Nena, como é carinhosamente chamada em toda Marília.

Espanhola de nascimento, Vovó Nena veio para o Brasil com um ano de idade. Morou em várias cidades até que, em 1928, fixou-se em Marília. Casou e enviuvou por duas vezes e, desde então, partiu em busca do sonho da infância: saltar de pára-quedas.

Um sonho que deu frio na barriga dos sete filhos (cinco mulheres e dois homens). Num domingo ensolarado do mês de agosto de 1992, Encarnacion convidou Joana e outras filhas para acompanhá-la até o Aeroporto de Marília.

Comentou que gostaria de ver o salto de pára-quedistas e, para surpresa e desespero geral, passou a integrar a equipe.

“A gente não sabia de nada. Quando vimos que ela iria mesmo saltar, procuramos um parente que é médico para examiná-la, pois temíamos algum problema cardíaco. Ela descartou e disse: ‘O Luís pode me olhar, mas não me tocar’”, detalha Joana. “Ficamos apavorados, com o coração na mão, mas ela realizou seu grande sonho”, completa.

O feito, que está no Guinness Book (o livro dos recordes), foi registrado pelas câmeras do Fantástico e por outras emissoras de televisão e jornais do País.

Dois meses depois, Vovó Nena saltou outra vez de pára-quedas e também voou de planador e de asa-delta.

Mas gosta mesmo é de pára-quedismo. Ao comemorar seus 92 anos, em abril, pediu de presente novamente para saltar. Mas a idade fez com que a família a demovesse do capricho.

Em troca, ofereceram-lhe uma bela festa, regada a muito bolo e com direito a seresta e muitos abraços e beijos de quase toda a Marília.

Vovó Nena ao recordar suas façanhas diz que pulando “se sente livre como um pássaro”. “Minha força vem de Deus. Eu nasci para isso”, conclui.

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