Cultura

Cinemas desagradam

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Uma das mais populares formas de lazer do bauruense, ir ao cinema está se tornando cada dia mais uma decisão complicada. Apesar de já ter possuído oito cinemas na década de 60, como lembra o historiador Luciano Dias Pires, hoje a cidade conta com apenas quatro espaços, os Cines Bauru 1 e 2, na região central e as salas Center 1 e 2, no Bauru Shopping Center. No centro da cidade ainda existe um cinema que exibe apenas obras pornográficas.

A pequena quantidade de salas faz com que muitos filmes - teoricamente pouco rentáveis - fiquem de fora das telas bauruenses. Desse modo, obras como “O Pianista”, um dos principais premiados do Oscar em 2003 e “Fale com Ela”, outra obra premiada, do diretor espanhol Pedro Almodóvar, para citar só duas, só possam ser vistas na cidade depois de lançadas em vídeo.

“Em compensação, filmes comerciais são programados às dezenas e ficam em exibição durante semanas”, afirma Antonio Carlos Meira, em uma carta enviada à Tribuna do Leitor do JC, na qual reclama justamente sobre a programação e o estado de conservação dos cinemas na cidade.

Mas o que tem tornado mais indigesta a decisão de ir ao cinemas na cidade não é a escolha dos filmes, mas o estado das salas. Cadeiras quebradas ou sem estofamento, manchas (possivelmente por umidade) nas paredes e sujeira não são mais surpresas, principalmente nas salas do centro da cidade. É certo que o público não tem contribuído para que o local permaneça limpo, mas a empresa proprietária dos espaços desde 1997, a Cinematográfica Araújo, que tem sede em Botucatu, durante os últimos anos também não tem feito a sua parte.

Quem tem a oportunidade de ir a cinemas em outras cidades avalia melhor o estado das salas em Bauru, como a médica Maria Tereza Nakandakari, moradora da cidade há muitos anos, mas que sempre viaja para Fortaleza - sua terra natal - com a família. Ontem ela levou os filhos, Suzana, de 10 anos e Gustavo, de 8 anos, ao Cine Bauru 2 para ver o desenho “Sinbad”, de lá, foi para o shopping tentar pegar a sessão de “Procurando Nemo”.

“O Cine Bauru está muito acabado, muito mal cuidado. Lá ainda é pior que no shopping”, diz. A médica acredita que as pessoas não valorizam o cinema em Bauru e acha que a platéia não ajuda na conservação, o que não acontece em Fortaleza.

O arquiteto Fernando Galo também afirma preferir os cinemas de outras localidades. “Aqui eles estão um pouco folgados porque só tem eles na cidade”, opina sobre os responsáveis pelos cinemas bauruenses. Ontem à tarde, Galo foi assistir o filme “Procurando Nemo” no Bauru Shopping. “As pessoas em Bauru estão acostumadas com um cinema de baixa qualidade, qualquer outra cidade do mesmo porte tem cinemas bem melhores. O pior problema é o descaso. O cinema é sujo, os filmes falham no meio”.

A estudante universitária Luana Vicente, que foi assistir o mesmo filme ontem, concorda. “Venho quase todo fim de semana no cinema. O pior é o estado em que ele se encontra, as cadeiras, a sujeira”, diz, explicando que prefere freqüentar as salas do shopping do que as do centro da cidade.

Depois do estado das salas as reclamações sobre os cinemas ainda passam por questões como a duração dos filmes, como aponta Elias Cury Neto, que escreveu para a Tribuna do Leitor reclamando do tempo de exibição de “Matrix Reloaded”, e do intervalo adotado nas salas bauruenses para o “conforto do público”, lembrado pela auxiliar administrativa Maria Tereza Santos, entrevistada na última semana enquanto aguardava para comprar ingressos do filme “Hulk”. “Acho que é só para vender mais pipoca”, brinca.

Sem respostas

Segundo a gerente da Cinematográfica Araújo na cidade, Rosinéia Vieira, existem projetos da exibidora para a melhoria das salas da cidade, mas ela não sabe precisar quando e como eles seriam colocados em prática. “Eu não posso responder essa pergunta por ele”, diz. “Ele” é o proprietário da Cinematográfica Araújo, Marcos Silva de Araújo, que poderia esclarecer a questão. Procurado durante toda a tarde de ontem pela reportagem do JC Cultura, Araújo não respondeu aos telefonemas, todos atendidos por sua secretária.

Vieira acredita que Bauru ainda terá salas modernas como as de outras cidades nas quais a Araújo possui cinemas, como Marília, Londrina, Maringá, Campo Grande e Cuiabá, entre outras. Mas, mais uma vez, a gerente não pode precisar quando qualquer tipo de reformulação ou melhoria deve ocorrer.

Enquanto isso, ela admite que o público tem direito de reclamar do estado das salas. Mas sobre as demais reclamações, Vieira acredita que exista um certo exagero. “Falhas de exibição sempre aconteceram, agora é que todo mundo está falando”, diz, sobre os cortes e seqüências desfocadas que não são raros em Bauru.

O intervalo também é defendido pela gerente: “Tem gente que não agüenta ficar vendo um filme longo. A criança não tem paciência, o adulto quer ir ao banheiro, quer fumar seu cigarro. Quem reclama é uma minoria, mas é difícil contentar a todos”, justifica.

Sobre a questão da escolha dos filmes que serão exibidos, ela diz que a programação é pré-estabelecida e tem datas a serem cumpridas, independente da bilheteria. “As exibidoras hoje em dia procuram trabalhar comercialmente. Não somos só nós que deixamos para exibir os filmes infantis nessa época, por exemplo”, afirma, lembrando que apenas alguns cinemas, como o Belas Artes, em São Paulo, exibem filmes de arte, uma realidade muito, muito longe do acontece em Bauru.

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