Em nossas mãos um opúsculo que emociona pela beleza de lenda, que conta em detalhes e que se assemelha plenamente a não poucos dramas que ocorrem em existências humanas nestes dias atropelantes. Por isso não podemos deixar de oferecê-lo à admiração dos leitores. Sob o título de “Saudade e esperança”, ele historia comovente caso hipoteticamente ocorrido entre dois seres totalmente diferentes em seus tamanhos e suas formas: uma menina e um passarinho! Desiguais em tudo, menos na harmonia de seus sentimentos. O destino os colocou certo dia um diante do outro e passaram a se amar profundamente. Todas as manhãs se encontravam porque a ave não esquecia a bela casinha da garota, com quem conversava carinhosamente, trocando sinceras juras de fidelidade, ao mesmo tempo que se revelavam cativados com os seus encantos mútuos, ela sempre com vestidinhos interessantes, ele com plumas coloridas e, ambos, com sorriso nos lábios. A menina, contudo, não achava suficientes seus colóquios com ele, apenas de manhã... Sonhava com mais, porquanto se considerava desprezada durante o tempo que o pássaro, seu grande amor, passava longe dela. Nessas horas, não suportava a saudade dele e chorava, mostrando no rosto toda a tristeza que lhe tomava o coração. O curioso é que ele também não conseguia superar a mágoa de sua saudade e, da mesma forma, derramava lágrimas convulsas. Eram, portanto, idênticos na bondade de seus sentimentos, assim como nas esperanças de que ambos voltassem a se reencontrar mais todos os dias. “Quem sabe voltaremos a nos abraçar mais e mais a partir de amanhã” - murmurava ela em seu berço e ele em seu ninho, pois esperanças não lhes faltavam. Esperanças que acabaram se concretizando!
Essa, a pequena história que na esfera humana tem não poucas edições e há, por isso, muita gente lançando a si mesma várias perguntas: - “Abstraída a literatura, o que é a saudade e o que é a esperança? Será que elas habitam indestrutivamente nos corações de todos? Conseqüentemente, também nos dos casais que se encontram, enamoram e um dia se consorciam? E o que tais sentimentos representam para os esposos que um dia, com ou sem motivo, destróem seu vínculo matrimonial e se deslocam para pousadas diferentes? Será que, imitando a ave e a menina da historinha, impulsionados pelos empurrões da saudade sentirão os incentivos da primavera que passou e terão desejo de se reencontrar em todas as outras manhãs de suas vidas?” Oxalá o tivessem, dizemos nós, como recomendam as insinuações do Deus que os criou, assim como os convites da ordem social, tão machucada por tantos enlaces que se desfazem e os seres dificilmente voltam para seus antigos ninhos. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)