Com o intuito de aproveitar da melhor maneira possível todas as horas do dia, a sociedade moderna está aumentando o ritmo de trabalho e fazendo da madrugada um expediente como outro qualquer. É cada vez maior o número de serviços durante a noite, o que está exigindo que muitos profissionais troquem o dia pela noite para poder desempenhar suas funções.
O resultado dessa nova tendência não podia ser mais dura para o homem moderno: estresse.
Os profissionais que desempenham as suas tarefas durante a madrugada tendem a desenvolver uma série de problemas de saúde, entre eles, a fadiga crônica.
A informação é da bióloga Lúcia Rotenberg, pesquisadora do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz. Recentemente, ela e as pesquisadoras Frida Fischer e Cláudia Moreno lançaram o livro “Trabalho em Turnos e Noturnos na Sociedade 24 horas” (Editora Atheneu), no qual destacam as conseqüências desse tipo de serviço na vida dos trabalhadores.
Lúcia salienta que uma das principais reclamações de quem desenvolve esse tipo de atividade é o excesso de sono. “O organismo humano é adaptado para dormir à noite e não o contrário”, explica.
Esse ritmo é ditado pelo “relógio biológico” de cada indivíduo, movido por um hormônio chamado cortisol. “O corpo fabrica essa substância durante 24 horas, mas há momentos de pico, que ocorrerem, principalmente, no início da manhã. Mesmo que a pessoa fique acordada durante a noite e durma durante o dia, essa produção não muda”, salienta Lúcia.
A pesquisa que resultou no livro foi feita ao longo de vários anos, pelas três pesquisadoras. Cada uma ficou responsável por um grupo distinto de estudo. Foram analisados caminhoneiros, enfermeiros e operários de fábricas.
Além da fadiga crônica relatada pelos entrevistados, as pesquisadoras constataram vários outros aspectos resultantes da inversão do dia pela noite. A má alimentação é uma delas. “Essas pessoas não se alimentam nos horários corretos, comem muitos congelados e pré-cozidos, o que pode resultar em gastrite ou úlcera”, destaca Lúcia.
Divórcios
Para se manterem acordadas, muitas pessoas fazem uso de bebidas cafeinadas. Também é grande o número de fumantes entre os trabalhadores da noite, segundo Lúcia Rotenberg. Dessa forma, aumenta o risco de desenvolverem doenças cardiovasculares ou coronarianas.
“Há uma série de fatores que vão se somando no organismo da pessoa, que a faz desenvolver determinados problemas de saúde”, diz Lúcia.
Além disso, há a questão social, que somatiza para acarretar pressões no cotidiano. “Como não dorme bem, a pessoa fica irritada. Dessa forma, acaba discutindo com os familiares e gerando atritos”, descreve a pesquisadora.
Entre as conseqüências mais visíveis dessa rotina atribulada está o divórcio. “A dificuldade de conciliar seus horários com os da família, a necessidade de dormir de dia e a maior irritabilidade provocada pelo sono são alguns dos motivos”, ressalta.
A pesquisadora comprovou, através de entrevista feita com trabalhadores do turno da noite de uma fábrica do Rio de Janeiro, que o desempenho sexual também é afetado. Os entrevistados contaram para ela que, devido aos horários desencontrados, não conseguem manter uma vida sexual ativa com as parceiras.
“Você sente que o organismo não está muito disposto a uma atividade sexual(...) Às vezes, você pode até dormir com a pessoa ali (...) já aconteceu comigo, eu achei que eu estava tão animado, chegou na hora eu dormi.(...) Dormi porque estava muito cansado”, descreve Nelson, um dos profissionais consultados por Lúcia.
Para tentar amenizar os problemas causados pelas noites em claro, a pesquisadora diz que seria necessário estabelecer um horário rígido de sono durante o dia. “Também é importante que a pessoa possa dar pequenos cochilos à noite, se a empresa permitir”, diz Lúcia.
A alimentação deve ser equilibrada, leve e em horários planejados.