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Credibilidade da 3a idade facilita crimes

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos meses, a Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Bauru prendeu em flagrante duas pessoas com idade acima de 50 anos acusadas de tráfico de drogas. O fato despertou a atenção da população que está acostumada a considerar a pessoa madura como íntegra, acima de qualquer suspeita.

A mudança do perfil do traficante é um dado novo, que ainda carece de estudos, mas a psicóloga Maria Lúcia Bien arrisca dizer que num futuro próximo podemos ter um contingente muito grande de idosos fora da lei.

Para a psicóloga, o que determina a integridade de um homem na terceira idade é a maneira como ele viveu diversas etapas da sua vida: infância, adolescência e fase adulta, com toda a influência recebida da hereditariedade e do meio. “Na maturidade um homem íntegro dificilmente muda seus valores”, explica.

Bien descarta a possibilidade de uma pessoa madura ser influenciada por outras. “Sua personalidade, sua conduta já deveria estar bem solidificada. Os delinqüentes idosos normalmente trazem consigo uma história de criminalidade”, frisa.

Para ela, o aumento do número de crianças de rua, a delinqüência juvenil e os criminosos que hoje estão na idade adulta podem gerar uma quantidade muito grande de sexagenários fora da lei, no futuro. “É provável que num futuro próximo tenhamos um contingente muito grande, sinônimo da evolução do ser humano, que envelhece sem corrigir suas falhas”, afirma a psicóloga.

Na opinião de Maria Lúcia, alguns aspectos devem ser considerados na análise do aumento da marginalidade. “As pessoas vivem num mundo agressivo, corrupto, materialista e individualista. Esses aspectos contribuem para a desumanização do homem. Eu acredito que o que pode levar um idoso de índole correta a praticar um furto é o desespero em alimentar um ente querido”, opina.

A idade avançada não pode mais ser sinônimo de credibilidade, acredita Bien. “A população não espera que pessoas nessa faixa etária se envolvam com a marginalidade, mas ocorre”, diz. O titular da Dise de Bauru, delegado José Henrique Gomes dos Santos, acredita que a mulher de 62 anos presa por tráfico em Bauru neste mês encaixa-se na análise da psicóloga. “Ela já tinha sido presa por tráfico antes de 1976, quando a lei de entorpecentes foi reformulada”, diz o delegado.

A mudança de comportamento de um homem de 57 anos preso no início do mês com mais de cinco quilos de maconha, na Vila Nova Esperança, não só engrossou a lista dos idosos fora da lei, mas decepcionou até o delegado José Jorge Cardia, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG). “Eu tinha trabalhado com ele antes de ser policial. Ele nunca tinha se envolvido com a marginalidade, já estava aposentado”, comenta.

Cardia acredita que nesse caso específico a mudança de comportamento se deu por uma questão econômica. “Ele aposentou e a renda familiar caiu. Para manter o mesmo padrão, ele optou pelo tráfico. É uma pena que a pessoa se envolva com o crime”, lamenta.

O delegado ressalta que a pratica de crimes mais graves, como o tráfico, era restrita aos jovens. “Está ocorrendo uma mudança de perfil. Os idosos praticavam apenas estelionato e furtos antigamente”, lembra.

Os cabelos grisalhos de Isaltina Gonçalves Mota não a impediram de ir para a Cadeia Pública de Cabrália Paulista. Acusada, pela segunda vez, de fazer tráfico de drogas, ela nega que tenha qualquer envolvimento com drogas. “Faz oito anos que eu me converti. Sou evangélica e com Jesus abandonei todos os vícios”, garante.

A sexagenária, presa com 170 gramas de maconha no último dia 11, no Núcleo Octávio Rasi, confessa que já foi viciada. “Eu fumava cigarro e maconha. Já fui presa por tráfico, mas parei com tudo isso”, sustenta.

Mãe de três filhos, a mulher conta que cuidava de seis netos, todos menores de 10 anos. “Meu filho está preso por tráfico. Minha nora também está presa pelo mesmo motivo”, admite. Ela conta que quis ajudar a mulher de um preso, amigo de seu filho e acabou na cadeia. “Eu tenho a carta que meu filho me enviou pedindo que acolhesse a mulher. Há um mês ela foi embora e depois a polícia apareceu e desenterrou a maconha no meu quintal. Acho que a droga era dela”, alega ela, que afirma que foi presa injustamente.

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Distribuidores

Em São Paulo é mais comum o envolvimento de idosos com o tráfico na função de distribuidor de grandes quantidades da droga, conta o delegado-adjunto da 1.ª Delegacia sobre Entorpecentes (Dise), Sérgio Lemos Nassur. “Eles evoluem nesse tipo de crime. Começam como traficantes e vão galgando cargos”, diz.

Na ponta da linha do tráfico, segundo ele, ainda estão os jovens. “A venda no varejo é feita por jovens de até 30 anos. Os idosos, acima de 50 anos, são minoria e só trabalham com quantidades maiores de drogas”, ressalta.

Ele acha que alguns dos traficantes idosos migraram de outros crimes. “Alguns são antigos ladrões de banco, de carro-forte e por já não possuir a mesma agilidade dos jovens, migraram para a distribuição de drogas”, analisa.

A migração é motivada pela segurança pessoal, segundo Nassur. “Eles já atingiram uma certa idade e temem o confronto com a polícia. No roubo, por exemplo, o risco de envolver-se em uma troca de tiros é maior. Por isso eles migram para o tráfico, para preservar a própria vida”, completa.

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