Também quero o meu quinhão nesse lucrativo negócio intitulado “capitalismo sem riscos”. Eu, que tenho uma pequena firma, onde a inadimplência já é uma das marcas preponderantes, não sei como devo proceder para fazer com que os riscos inexistam. Aqui eles existem aos borbotões, mas existem uns tantos privilegiados que conseguem cláusulas contratuais garantindo o lucro e no caso de prejuízo, um complemento adicional.
Vejam o caso das atuais concessões que o governo estadual concedeu às empresas controladoras dos pedágios paulistas. Um santo negócio de 20 longos anos, onde além do vantajoso lucro, existe uma cláusula no contrato, que na hipótese de não ser atingido um percentual mínimo de veículos passando por suas cancelas, o governo será obrigado a bancar a diferença, pois em hipótese alguma eles poderão ter algum tipo de prejuízo ou redução das margens de lucro. Ainda tem algo que torna o negócio mais apreciável, pois quando o movimento é muito maior que o imaginado, eles nada precisam devolver. É o “venha a nós, ao vosso reino nada”. O céu é o limite.
Caso similar parece estar acontecendo aqui em nossa cidade, onde as empresas de ônibus TUA e KUBA pedem indenização por passageiros não transportados e previstos em contrato. Alegam que existe uma cláusula contratual, onde a Emdurb garantia um volume mínimo de passageiros por mês e o prometido não está sendo alcançado. Sendo assim, mesmo que o ônibus não saia da garagem, a grana entrará nos cofres da empresa (isso mesmo, no singular, pois as duas são uma só).
É só o que quero para minha modesta empresa. Só não sei se devo recorrer ao governo estadual ou à prefeitura municipal. Já relacionei tudo o que necessito por mês, fiz uma planilha bem pomposa, com tudo aquilo que não fico sem de jeito nenhum e estou requerendo mediante protocolo (com esse pessoal é sempre bom se garantir), o mesmo privilégio aos empresários dos dois ramos citados. Só quero que essa moderna modalidade de garantia de negócio seja também estendida aos demais contribuintes paulistas e bauruenses, para que muitos como eu possam normalizar seus negócios. Isso tudo me lembra, no governo de FHC, quando privatizavam alguma estatal, financiavam o comprador estrangeiro com dinheiro público. Quer melhor negócio que esse, o cara compra e não precisa desembolsar um tostão. Generosidade igual a esta deveria ser estendida para todo o empresariado (depauperado, diga-se de passagem), chegando em muito boa hora. Afinal, também somos filhos de Deus. (Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2)