Tribuna do Leitor

Pichação, eterna maldição


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Tenho ido a São Manuel a serviço e, logo na primeira vez que entrei na cidade, percebi algo inusitado: não existe uma única pichação, um único muro sequer rabiscado à lápis. As fachadas das casas e do comércio são multicoloridos, em cores vivas ou tons degradé, cores alegres e vibrantes, certamente como deixa o “estado de espírito” de seus moradores. Todos os viadutos e divisões de avenidas, bem como praças públicas, também são pintados em duas ou três cores. Vi, também, várias lojas de tintas (e sprays), só não vi foram os animais que sujam e enfeiam a cidade. Uma triste comparação com a sina de Bauru.

Entretanto, segundo me disseram, percebe-se que lá existe uma união entre a polícia e os órgãos representativos do povo (Prefeitura e Câmara), que permanecem atentos aos desatinos de sua juventude. Essa colega que me contou isso disse que o Curador da Infância e Juventude é extremamente enérgico, e esses “pequenos delitos” são revolvidos a nível de Febem, e não com conversas com os “papais”. Exatamente o inverso do que ocorre em nossa cidade. Para prefeito e vereadores, a pichação ou não existe ou não interessa a nenhum deles, ainda que seja um problema grave na cidade e que atinge a todos seus cidadãos; ao que tudo indica, o mote da hora é ver quem vai assumir nova cadeira, como se vai articular o bloco, quem vai importunar o prefeito, e este sequer olha para o que ocorre debaixo de seus olhos. Quanto à polícia, sem comentários. Em 15/07, em matéria veiculada pela TV sobre as pichações em Bauru (Jornal das Sete), mais uma vez “entrevistaram” um pichador, que afirmou que o mérito entre eles consiste em “quem picha mais alto, quem picha em maior quantidade e quem picha maior”. Infelizmente, todos se consagram campeões, absolutamente capazes em atingir com louvor as três categorias.

Mas, a repórter que fez a matéria, ao procurar informações na polícia, disse que a autoridade policial (ela não citou nome infelizmente) teria dito que dificulta a investigação o fato de não serem elaborados os boletins de ocorrência pelas vítimas (??!!!). Se há algum boletim a elaborar é o de prevaricação para a autoridade que fez essa declaração, pois que a pichação, antes de invadir a esfera privada, é um crime de ordem pública – ainda que feito em patrimônio particular – porque existe o dano ao meio ambiente em face da tutela difusa (e não individual) que lhe é inerente. A poluição visual atinge a TODOS, independente de se ser vítima ou não do crime.

Além disso, o chamado “BO” serve para levar a notícia de um delito ao conhecimento da autoridade policial, que deverá agir de ofício quando se tratar de crime de ordem pública. Será que alguma autoridade em Bauru não tem conhecimento disso? Será que ainda é preciso “elaborar BO” para que uma autoridade, nessa cidade amaldiçoada pela incompetência de seus administradores, possa enxergar o óbvio?

Nota-se, em conclusão, que o nefasto e flagrante crime de dano (ao bem público e privado), que as ofensas ao meio ambiente sadio, que a poluição visual e o vandalismo não apenas medram em nossa cidade, mas ganham mais forças pela absoluta e indiscutível omissão das autoridades (prefeito, vereadores e polícia), pela ignorância e incompetência em gerir os interesses coletivos. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)

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