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Japoneses celebram 30 anos de templo

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

A colônia japonesa de Bauru se reuniu ontem para comemorar os 30 anos de inauguração do templo da Paulista Jinja, sede regional da Igreja Kaminoya Daijingo do Brasil e que fica localizada na rodovia Bauru-Marília. A cerimônia xintoísta (religião nacional do Japão) contou com a participação de cerca de 400 pessoas.

O presidente da Paulista Jinja, Tsukane Tanaka, relembra que a idéia de construir o templo na cidade foi dada pelo bispo da igreja matriz a ele e outros quatro colegas, todos já falecidos. “Eu tinha vindo com quatro anos para o Brasil e não entendia muito bem sobre as tradições do Japão, mas outros dois fundadores, que tinham imigrado quando eram mais velhos, disseram que seria fácil construí-lo”, afirma.

A falta de recursos para o obra, porém, se transformou no primeiro obstáculo. “O carpinteiro fez o orçamento e vimos que era muito caro, mas o bispo já havia dado o dinheiro para comprar as telhas e não pudemos desistir. Muita gente ajudou e começamos a erguê-lo”, conta Tanaka.

No terreno, doado por Tokiti Beppu, o que se vê hoje é um prédio construído com traços da arquitetura oriental. Na parte da frente, foi realizada a cerimônia religiosa, comandada pelo bispo Tamoto Susato, que também benzeu os carros que estavam no pátio da igreja.

Durante a celebração, alguns participantes puderam carregar uma relíquia feita no Japão e que pesa aproximadamente 230 quilos. Ela fica na igreja matriz, em Arujá (SP) e foi trazida especialmente para a festa. “É um santuário que contém a imagem espiritual de Deus e costuma circular pelos bairros agradecendo a fartura da lavoura, indústria e comércio”, explica o diretor da Kaminoya, Pedro Miura.

Enquanto o grupo se esforçava para equilibrar o andor sobre os ombros, uma pessoa seguia à frente gritando frases de incentivo e ditando o ritmo.

Tradição

Para Mitsuo Yamamoto, que mora em São Paulo e veio a Bauru para acompanhar o pai até o templo, a celebração tem um caráter especial. “O mais importante é manter a tradição religiosa do xintoísmo”, afirma.

O diretor do Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru, Massaru Ogino, que participou da festa como convidado, acredita que o encontro tem ainda outra finalidade. “Muita gente pensa, erradamente, que a religião nacional do Japão é o budismo, mas na verdade é o xintoísmo. A igreja xintoísta faz parte da família imperial e tem uma história de quase 3.000 anos”, diz.

Segundo ele, o Japão é um exemplo de convivência pacífica entre as religiões. “O mais importante é que 90% das pessoas seguem o budismo e o xintoísmo simultaneamente, sem conflitos”, declara.

O presidente da Paulista Jinja se mostrou feliz com a quantidade de pessoas presentes ao encontro, que terminou com um almoço de confraternização. “A reunião dos descendentes é a parte mais importante. É uma festa para comemorar e relembrar os nossos pioneiros”, opina.

Um levantamento feito em 1997 revelou que Bauru, na época, tinha 1.500 famílias de descendentes de japoneses.

Origens

A Igreja Kaminoya Daijingo do Brasil surgiu há 62 anos pelas mãos da mestre superiora Suzuko Morishita. “Ela ajudava muitas pessoas com problemas e recebeu uma ordem espiritual para permanecer no Brasil. A intenção dela era voltar ao Japão e já estava preparada para ir. Aconteceu uma séria de coisas, veio a Segunda Guerra e ela não conseguiu retornar”, conta o diretor da igreja, Pedro Miura.

Segundo ele, outra mensagem espiritual fez com que a Kaminoya fosse criada. “Ela foi orientada a se dedicar às pessoas que estavam desenganadas pela medicina. Através desse auxílio espiritual, por incrível que pareça, muitas foram melhorando. Ela mesmo diz que não entendia aquilo, só entendia a força de Deus e do espírito para que a pessoa conseguisse a cura”, diz.

Suzuko vive hoje em Arujá, onde está a sede da igreja, e tem 95 anos. “Devido à idade, ela, não tem vindo para cá. Chegamos a pensar até em trazê-la de avião, mas não deu certo”, revela.

Quem mora na matriz e veio a Bauru foi o funcionário Fabrício Rossi, que desde 1995 trabalha na Kaminoya. “Virei um filho adotivo para a mestre superiora. Moro em uma casa no templo e fico mais por lá do que com a minha mãe verdadeira. Eu sou católico, mas também adotei o xintoísmo”, afirma.

Além de Bauru, há uma outra sede regional da igreja em Presidente Prudente.

Já o xintoísmo, que significa caminho dos deuses, é a religião mais antiga existente no Japão. Originalmente, não tinha nome, doutrinas ou dogmas. Era um conjunto de ritos e mitos que explicavam a origem do mundo, do povo japonês e da família imperial. Os protagonistas eram os kamis, deuses ou energias divinas que habitam todas as coisas.

O xintoísmo chegou a ser a religião oficial do Japão, mas após a Segunda Guerra o imperador Hiroito renunciou ao caráter divino atribuído à realeza e a nova Constituição passou a defender a liberdade religiosa.

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