Ninguém, em sã consciência, pode ser contrário à globalização. Mas a uma globalização que resulte de um processo espontâneo, à medida em que, ao longo do tempo, a intercomunicação entre os povos e as culturas vá revelando que todos somos irmãos, e que as rivalidades são obstáculos à prosperidade e felicidade geral, obviamente dependente da cooperação e não da oposição e da luta.
Mas a globalização de que se fala no momento é algo que tenta impor um inegável poder mundial que, permeando e influenciando governos e governantes, no fundo seus serviçais, controla hoje um formidável poderio militar que, cada vez mais escancaradamente, vai mostrando a sua verdadeira e criminosa face.
Ocorrem-nos essas reflexões, a propósito do tão debatido problema da reforma do sistema previdenciário, cuja iminente falência é proclamada e posta à conta de supostos privilégios dos funcionários públicos. Não resta dúvida de que, em alguns casos, absolutamente minoritários, eles existem. E por existirem, são brandidos como pretextos, de modo a alcançar o apoio da opinião pública quando, na verdade, a suposta falência insere-se no contexto muito mais amplo do “Estado mínimo”, que é o que interessa aos propósitos de dominação do poder mundial acima mencionado. O leitor, por exemplo, estamos certos de que, na maioria dos casos, ignora que a mesma questão está sendo suscitada em vários países do mundo, inclusive do chamado primeiro mundo. No Canadá, por exemplo, pasme o leitor, está sendo exigido que a aposentadoria do servidor público não possa ocorrer antes dos 70 anos de idade! Na hipótese do ingresso no serviço público aos 21 anos, teria ele que contribuir durante 49 anos para poder aposentar-se.
Deixando de lado, porém, outros países, fixemo-nos no nosso. A Previdência está com dificuldades de caixa, porque as contribuições dos servidores não são recolhidas a um fundo de previdência, mas para a caixa dos previdenciários. Para dar um único exemplo: quem ignora a massa de dinheiro previdenciário usada na construção de Brasília? Por outro lado, o servidor contribui mensalmente, mas o Estado, diferentemente do que acontece à Previdência dos trabalhadores em geral, que contribuem com desconto ao seu salário, contribuição que deve ser depositada em dobro pelo seu empregador, o Estado, dizíamos, não apenas não contribui com coisa alguma como, tal como o assinalamos acima, longe de gerir os fundos depositados, de modo a que eles cresçam ao longo do tempo, os desvia e malbarata para os mais diversos fins.
A Previdência afinal, não é algo situado no domínio da caridade, mas do cálculo atuarial competente e da gestão imposta pelas conclusões do referido cálculo.
O escândalo e a crueldade, pois, em que se vem constituindo o desassossego semeado na família dos servidores e dos seus beneficiários e pensionistas, é intrinsecamente injusto e serve, no fundo, repitamos, à estratégia do Estado mínimo, adotada por aqueles que o mundo começa a identificar como seus verdadeiros inimigos, e a fonte de que provêm verdadeiramente, as ameaças que pesam sobre a humanidade. Elas, de fato, não partem dos Ossama Bin Laden e Saddam Hussein, mas nos Paul Bremer, Rumsfeld, Wolwovitz e George W. Bush, tal como foi dito, na rede ABC de TV americana, por um sargento americano dos que estão, no momento, ocupando o Iraque, depois de o terem massacrado.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.