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'Oi vc quer tc? naum? pq? kd vc?'

Da Redação
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Siglas como vc, tb, tc, naum e kdvc são comuns nas salas de bate-papo e mensagens de correio eletrônico, criando praticamente um dialeto particular da Internet. O que anda preocupando alguns professores e educadores é que esta linguagem está alcançando os textos dos alunos nas escolas.

Inará Damacena, professora e coordenadora de redação de um colégio privado de Bauru, diz que não só as expressões vindas da Internet e as abreviações são motivo de preocupação dos professores, mas também a linguagem fragmentada e a falta do uso de pontuação.

“Você encontra uma frase aparentemente sem coerência, como ‘encontro amanha’, mas que para o aluno é totalmente coerente. Ele quis dizer ‘vou encontrar-me com você amanhã’. Não adianta você só dizer que o ‘naum’ que ele escreve é ‘não’. O trabalho do educador é conversar, mostrar a diferença e explicar o contexto”, explica Inará.

Assim como nos diálogos da Internet, ela conta que a pontuação é praticamente inexistente nos textos escritos por adolescentes. “Pontuação e diferenciação de letra maiúscula e minúscula, eles não colocam. Às vezes, só aquele ponto final para encerrar o texto”, explica a professora.

Para Marcelo Bulhões, professor de língua e literatura na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e na Universidade de São Paulo (USP), a diferença principal nesta questão é entre o padrão culto da língua portuguesa e a oralidade. “A Internet é um veículo que atua no nível da oralidade e da coloquialidade. É uma linguagem muito rápida, mas no entanto, eu vejo uma perda da capacidade expressiva dos usuários, um desprezo de certas formas verbais e gramaticais que são importantes, até para que um aluno chegue a um nível escrito satisfatório na norma culta”, comenta Bulhões.

A professora Inará lembra de uma proposta de redação de um texto, apresentada aos alunos, sobre namoro via Internet. “Seria permitido desenvolver o texto naturalmente, como se fosse na tela com computador, com o diálogo entre as pessoas. Eles criaram um universo ao qual eles estão habituados. E nos momentos do narrador, eles sabiam que não poderiam manter a linguagem do bate-papo. Foi uma forma de mostrar que eles podem trabalhar com as duas linguagens”, acrescenta.

A utilização de elementos descritivos e narrativos também se torna uma ferramenta dos professores na aproximação dos bate-papos com a sala de aula. “Eles desenvolvem os tipos de texto, fazem descrição física, psicológica, usam elementos narrativos. É importante mostrar para o aluno que ele está fazendo, sem pensar, o que é pedido dentro da sala de aula”, demonstra a professora.

O estudante Wellington Diego Pereira, de 12 anos, diz não ter dúvida da diferença entre a linguagem que usa nas salas de bate-papo e os textos da escola. “No bate-papo, eu gosto de abreviar palavras, é mais fácil. Mas às vezes, as pessoas escrevem muito errado e nem dá para entender. Se escreve muito errado, eu aviso e não converso mais com a pessoa”, diz, convicto.

Ao contrário de Wellington, Sidnei Barnabé, de 22 anos, conta que usa linguagem abreviada sempre, mesmo para escrever “de verdade”. “Não me incomoda quando uma pessoa usa essas expressões ou abrevia palavras no bate-papo. Eu abrevio, mas tento escrever corretamente. O diálogo fica mais rápido assim”, defende-se.

A produtora cultural Maria Rita Oriolo diz que não tem o hábito de entrar em salas de bate-papo, porém envia e-mails diariamente. “Na maioria das vezes, eu escrevo certo. Mas essa é a linguagem da Internet. Não é escrever v-o-c-ê, é ‘vc’. A questão da linguagem é importante, porque é uma cultura. Mas ao mesmo tempo, temos de pensar na língua portuguesa”, alfineta.

Maria Rita é uma das responsáveis pela sala de computadores da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, onde o acesso à Internet é gratuito. A oficina fica na rua Amazonas, 1-41, e o telefone é (14) 231-1100.

Criatividade e ;-)

Inará é da opinião de que a participação em salas de bate-papo ajuda a desenvolver a capacidade de escrita dos alunos, além de sua criatividade. “Se um aluno vai participar de uma conversa com um ídolo, por exemplo, ele quer fazer as melhores perguntas, e procura nossa orientação, para travar um diálogo maior e melhor”, diz.

A saída aos professores, segundo Inará, é a buscar conhecer esse universo da Internet, tão natural para os alunos. “Se um aluno coloca um ponto-e-vírgula e um parenteses, ele quer dizer no texto, diretamente, que o menino piscou para a menina. Isto é extremamente criativo. O educador tem que trocar conhecimento com o aluno, e saber como trabalhar com esse conteúdo, adequando ao que será cobrado do aluno no seu dia-a-dia”, orienta Inará.

“Todo escritor é um grande leitor. E nós vivemos uma crise da leitura, de certo modo. Há uma banalização, quase uma infantilização da leitura, e ‘Harry Potter’ é um fenômeno disso”, critica o professor Bulhões.

Na sua opinião, o maior desafio aos educadores atualmente é a conquista de novos leitores, lutando contra a sedução de outras linguagens, como a televisão, a Internet, o cinema e o vídeo-game. “Ele (o professor) tem de considerar esse apelo das várias linguagens e ir ao seu encontro. E fazer chegar ao aluno de que o grande texto e os grandes autores são muito mais gratificantes. Quando o aluno percebe, quando dá aquele barato diante de um grande autor, ele passa a ser um leitor mais dedicado e avançado”, conclui.

E se ainda não foi possível entender as expressões do início do texto, 'tc' significa teclar, conversar pelo computador, e 'kdvc' é cadê você.

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Internautas não vêem problema em abreviar

A reportagem do JC participou de um bate-papo virtual com alguns adolescentes e jovens na última sexta-feira, para saber o que eles pensam sobre a linguagem usada na Internet. Todos os internautas que deram atenção ao repórter preferiram ser identificados apenas pelos “nicks”, os apelidos usados nos bate-papos.

O adolescente “cara di atitudi”, de 17 anos, contou que sempre participa de conversas on-line, e não se importa com as abreviações e expressões. “A maioria das pessoas escreve sempre errado, tipo ‘naum’, ‘vc’ e tal. Na Internet, é tipo um jeito de se expressar. É mais legal. Acho normal e também me expresso assim”, diz.

“Docinho”, de 16 anos, também é freqüentadora assídua das salas, mas diz que sabe quando utilizar as expressões próprias da Internet. “Só uso na net, coisas como ‘tc’ e ‘naum’. Mas é estranho quando uma pessoa escreve tudo certo (no bate-papo)”.

Já o “personal_ trainner”, de 23 anos, estudante de ciências da computação, diz que “nem” usa este tipo de expressões. “Porque não quero, mano”, responde. Mas acha “normal” quando outras pessoas conversam com ele, na Internet, usando-as.

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