Fora o carisma do presidente Lula e sua alta taxa de popularidade, as pesquisas começam a apontar uma queda na aprovação do governo como um todo. Dois fatores contribuem para tal evento: o quadro recessivo imposto pelas medidas econômicas e a reforma da Previdência, que coloca o governo do PT contra tudo aquilo que pregou pela sua existência afora.
A Previdência compõe o que se convencionou chamar de “estado do bem estar”, nascido por volta de 1880, na Alemanha, sob a égide do conde Otto von Bismarck (1815-1898). Preocupado com a inteligência ativa de uma classe trabalhadora em rápida expansão e receptiva a idéias revolucionárias como as do seu compatriota Karl Marx, recém-falecido, tratou Bismarck de fazer aprovar no Parlamento leis que, ainda de forma precária, protegiam os trabalhadores de acidentes, doenças, velhice e incapacidade. A Inglaterra, em 1911, avançou mais e instituiu o seguro contra doença e invalidez e, mais tarde, criou o seguro-desemprego.
O presidente Franklin D. Roosevelt respondeu a Grande Depressão que se abateu sobre os Estados Unidos a partir de 1930 com a implantação, em 1933, logo após sua eleição, do New Deal (Nova Política). Tratava-se de uma intervenção estatal para desenvolver a economia e gerar empregos. Junto com o New Deal veio, aproveitando o exemplo inglês, o “estado do bem estar”. A estratégia de Roosevelt e seu plano eram fazer o país crescer e gerar empregos. Aliás, o melhor remédio para o social é gerar empregos. Roosevelt ousou ...venceu e serve de exemplo.
Os fatores que colocam o governo do PT no canto do ringue foram tratados por esses países, onde o capitalismo tem suas raízes mais profundas, com medidas de alcance social de fazer inveja a certa “esquerda” que quando chega ao governo torna-se a alegria da “direita selvagem”.
As reformas da Previdência e Tributária não devem ser tratadas de forma “solta”, pois ambas fazem parte do contexto da nação e da sociedade, sendo instrumentos na construção do seu futuro. A ideologia, e não só a questão do acerto do “caixa”, deve nortear essas mudanças, a não ser que desejamos continuar como uma colcha de retalhos, com remendos aqui e ali, sem textura de nação.
Já se ouve vozes que apenas baixar os juros não garante a retomada do crescimento e a geração de empregos. Embora importante, a queda de juros não é solução para o desemprego, junto com ela precisam vir outras medidas visando o desenvolvimento da Nação. Elas poderiam vir na reforma Tributária, mas não virão, pois a reforma está sendo tratada como mera divisão do butim de impostos e taxas entre os Estados e a União. Cada um cuida do seu e o resto que se dane. É bom o contribuinte preparar o bolso pois tiraram da geladeira a tal “inspeção veicular” que tomará dos proprietários de veículos, com mais de três anos de uso, entre R$ 70,00 e R$ 100,00 por ano. Fazendo as contas tomarão do povão, por ano, mais R$ 3 ou R$ 4 bilhões.
Sem estratégia e plano de nação, a celeuma que aí está só servirá para piorar o serviço público e, assim, prejudicar a população. Talvez o mais grave seja o enfraquecimento do Estado, tornando-o refém de grupos com interesses específicos que não os da coletividade. A queda de juros será economicamente um evento solitário e a recessão continuará.
Mr. Lula resistirá por mais um tempo com a popularidade em alta, já o governo petista, a manter essa situação, amargará a queda nas pesquisas. Sem querer provocar, acho que devemos colocar as barbas de molho que o mar não está para peixe.
O autor, Tidei de Lima, é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura do Estado de São Paulo e ex-prefeito de Bauru.