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Eles querem distância do volante!

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

É comum encontrarmos pessoas que consideram o ato de dirigir quase um “ritual sagrado” em seu dia-a-dia. Para esses personagens, assumir o comando de um automóvel é questão de honra e a ousadia de tentar demovê-los de tal responsabilidade é uma “heresia”. Entretanto, também existem aqueles que, por uma série de razões, mantêm distância, propositalmente ou não, do volante.

É o caso do arquiteto bauruense Jurandyr Bueno Filho, 61 anos, que só vê vantagens em não guiar. A principal delas, e motivo que o fez mesmo sendo habilitado a abandonar a direção, é a liberdade para resolver questões profissionais. “Aproveito o tempo que perderia ao volante para organizar a agenda, falar com calma ao celular e pensar nas reuniões, onde jamais posso chegar estressado”, explica.

Mas, para ter a “vida boa” de passageiro, Jurandyr usufrui, já há sete anos, dos serviços do seu motorista particular Júlio César Chaves. Além de ressaltar que iniciou na função por acaso, ele conta que atualmente é um “faz-tudo” para o arquiteto, conciliando o volante às tarefas de secretário. “Atendo celular e pago contas”, diz ele, que estima dirigir semanalmente cerca de 1.000 quilômetros.

Já acostumado ao conforto de ser um passageiro por opção, Jurandyr enfatiza que não dirige nem quando tem mais tempo, como nos finais de semana. “Tenho preguiça e, além disso, não quero valorizar o carro como se fosse tudo na vida nem transformá-lo em um amuleto”, enfatiza.

Segundo o arquiteto, os automóveis são geradores de constantes conflitos. “Nossas antigas ruas de terra, feitas para carroças, foram adaptadas para que eles pudessem andar. Além disso, o trânsito mata o equivalente a uma queda de um Jumbo a cada dois dias no País”, destaca ele.

Apesar disso, Jurandyr garante que sempre gostou de dirigir, principalmente quando era jovem. “Tirei carta aos 20 anos e era aquela empolgação ficar rodando por aí. Mas, por conta das atividades profissionais, fui perdendo paulatinamente a vontade de estar ao volante. Mesmo assim, nunca bati”, assegura o arquiteto.

Acomodação

Outro que não troca por nada a comodidade do banco traseiro pela direção é o empresário bauruense Paulo Medina Garcia, 70 anos. “Detesto dirigir”, resume. Por essa razão, ele atualmente limita-se a assumir o comando de seu automóvel apenas para resolver problemas na cidade. “Faço isso por necessidade, não por gosto ou fazer questão. Prefiro sempre ser passageiro”, destaca.

Paulo argumenta que nunca foi um “fanático” por veículos e, muito menos, por guiá-los. “Quando meus filhos eram pequenos dirigia direto, pois era a forma de aproveitar a infância deles”, recorda ele.

Mas, atualmente, o empresário faz questão de contratar os serviços de motoristas para viajar, uma das maiores exigências de sua profissão. “Não guio na estrada, pelo menos, há dez anos. Sou acomodado”, afirma.

Além disso, a exemplo do arquiteto Jurandyr, Paulo aproveita a ocasião para pensar na organização dos eventos (ele é dono de um buffet). “É a hora em que normalmente resolvo o tipo do cardápio a ser usado e a estruturação das festas”, frisa o empresário, que sempre acomoda-se no banco traseiro. “É mais seguro”, acredita.

Paulo sustenta, ainda, que a opção por um motorista de confiança, que no seu caso possui perfil sempre jovem, depende da consciência pessoal. “Para dirigir é necessário estar muito bem preparado. Independente da idade, não adianta querer forçar. Mas estar ou não em condições de dirigir é um fato que o próprio condutor deve avaliar”, considera ele.

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Como é necessidade

A dona-de-casa maranhense Teresa Mendes, 39 anos, vive em Bauru há cinco anos. Nesse período, sempre adotou o táxi e os ônibus para deslocar-se até consultas médicas e até mesmo passear. Além disso, como sempre gostou de caminhar, aproveita para levar os filhos pequenos à escola, que é perto de sua residência.

Entretanto, engana-se quem pensa que Teresa odeia dirigir ou anda a pé, de táxi ou em coletivos porque quer. Em seu caso, a falta de condições financeiras para adquirir um automóvel é o problema. “Nunca tive carro, mas um dia o terei, pois faz muita falta”, salienta a dona-de-casa, que ainda não tem carteira de habilitação. “Comecei a tirá-la, mas tive de interromper o processo quando me mudei para Bauru”, acrescenta.

E é justamente por andar e depender freqüentemente de ônibus que Teresa também faz críticas ao atual sistema de transporte coletivo da cidade. Ela reclama a ausência de linhas destinadas a pontos turísticos municipais, como o Zoológico e o Bosque. “Praticamente inexistem ônibus para esses locais. Além disso, para ir à rodoviária tenho de me deslocar ao Centro e tomar outro coletivo”, protesta ela.

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