Os cantores, compositores e instrumentistas sempre acreditaram na música como forma de terapia. Mas agora até a medicina está reconhecendo a arte como instrumento de cura para algumas doenças, traumas, correções de problemas posturais e até de relacionamento.
“Pode escrever: a música é remédio com certeza”, afirma a regente Hilda Campos, que tem 37 anos de vida musical e hoje comanda os corais “Iteano” e “Dante Aleghieri”.
Ela revela que possui o hábito de ler revistas médicas e conferiu em várias reportagens a sustentação para a tese que não é mais filosofia de artista. No ano passado, o Congresso Mundial de Psiquiatria reconheceu a prática de diversas manifestações artísticas como tratamento.
Segundo a regente, o aprendizado de música está diretamente ligado ao funcionamento do cérebro e às atitudes que retardam o envelhecimento. Hilda se recorda que em uma das matérias estavam elencados os elementos: alimentação equilibrada, exercícios físicos, aprender uma nova língua e tocar o instrumento.
“Tudo isso para se resgatar os processos de aprendizado da infância. Eu já sei tocar piano, mas quando pego uma música nova, o meu cérebro tem que decodificá-la, mandar para a minha mão, para ela tocar. Quem mexe há muito tempo com música tem o ouvido interior e não precisa nem cantarolar, só de olhar uma partitura já escuta a música. Mas agora o cérebro foi mapeado e já detectaram qual parte funciona ao cantarmos e estão estudando isso a fundo.”
Ela exemplifica que pessoas que tiveram derrames podem não reconhecer os parentes, mas se ouvir uma música dos tempos de infância, com certeza, se lembrará. “A música a pessoa não esquece. Ela fica guardada em outro lugar. Então, a música é remédio, sim”, enfatiza.
Dessa maneira, a regente insiste que fazer canto coral é uma terapia, já que é um exercício de memória e concentração.
Num coro onde são trabalhadas normalmente quatro vozes diferentes, até o coralista chegar num ponto de perfeição, envolve aprendizado e independência auditiva para o cantor executar a sua voz e não se atrapalhar com as demais.
Outro ponto comprovado pela regente é a música como elemento de sociabilidade e remédio para a depressão. Ela tem vários alunos que perderam os filhos e encontraram no coral o preenchimento para parte da lacuna.
“A interação com as outras pessoas, realidades e até problemas colaboram para o crescimento do indivíduo e a música proporciona que se aumente o repertório de boas emoções.”
Hilda Campos conta que muitos profissionais que já cantaram em coral, voltam a procurar a música como terapia. A regente teve uma aluna de piano que em um dado momento da faculdade de medicina teve problemas. Um professor que sabia da sua carreira de pianista interrompida aconselhou que ela resolvesse sua relação com o instrumento para solucionar o problema com a faculdade.
Outros alunos do seu coral da Instituição Toledo de Ensino reafirmam que nos dias de ensaio, as aulas, mesmo as mais pesadas, fluem melhor.
Palco de jogo
Uma apresentação musical é um jogo onde não se sabe o resultado: aplausos ou vaias. Mas para que o show seja válido é preciso cantar com o corpo e a alma. A regente fica furiosa quando se canta com a boca. Afinal, a voz se processa da barriga à cabeça e se canta com expressões faciais, postura e gingado que se alteram de uma peça a outra.
“Tudo isso exige preparo, disciplina e coordenação do cérebro. Digo sempre antes de começar meus ensaios: vamos usar os neurônios”, brinca e depois inicia um trabalho de relaxamento físico, massagens, onde aponta que a terapia do toque está presente, para só então aquecer a voz de seus cantores e começar o ensaio de fato. De onde, ela garante, que a maioria sai de alma lavada.
Mas quando a regente está querendo mais do grupo deixa uma canção difícil para o final, para que pensem e exercitem durante a semana.
“Se as pessoas soubessem o bem que faz cantar haveria um coral a cada esquina, basta juntar 20 pessoas com meia hora de ensaio por semana. A voz é o único instrumento musical feito por Deus, mas que a gente ainda não aprendeu a usar direito, nem para remédio.”