Passado a tormenta, que foi a primeira votação da reforma da Previdência, as atenções voltam-se mais uma vez para a recessão econômica que nos atinge. Os dados recentes sobre a atividade econômica são desastrosos. O produto industrial vem caindo desde o fim do ano passado e a intensidade da queda vem aumentando nos últimos dois meses. As previsões do crescimento industrial para 2003, que no auge do otimismo com a eleição de Lula no ano passado chegaram a 2,5%, estão hoje na faixa de 0,5% a - 0,5%. As vendas do comércio vêm apresentando a mesma tendência de piora na medida em que caminhamos ao longo do ano de 2003. Nos primeiros quatro meses as vendas foram 9,3% menores do que no mesmo período do ano passado; nos primeiros cinco, a queda foi de 11,9% e no primeiro semestre chegou a 13,3%. Em função da recessão que nos atinge os salários reais não param de cair e as taxas de desemprego batem recordes todos os meses. Em dezembro do ano passado, quando a maioria da população brasileira regozijava-se com a eleição de nosso primeiro presidente de origem operária, o IBGE informava que o desemprego no Brasil representava 10,5% da população ativa. Em abril esta taxa era de 12,4%, em maio 12,8% e agora em junho chegou a 13,0%. No mesmo mês festivo de dezembro, pelo menos para os que votaram no candidato do Partido dos Trabalhadores, a renda média do trabalhador brasileiro era de aproximadamente R$ 1.100,00; em junho, quando o governo encaminhou sua proposta de reforma da Previdência ao Congresso, o trabalhador já ganhava em média, e descontados os efeitos da inflação, menos de R$ 850,00. Uma queda de mais de 22% em seu poder aquisitivo.
Estes números mostram, claramente, a gravidade da situação e que não chegamos ainda ao fundo do poço. A manutenção pelo Banco Central de juros reais elevadíssimos, mesmo depois que a economia entrou em rota de desaquecimento, é a grande responsável por este desastre. O dr. Meirelles, presidente de nossa Autoridade Monetária no governo do Partido dos Trabalhadores, vêm alardeando aos quatro ventos que sua função é manter a inflação baixa, se possível, em nível igual à dos USA, país em que morou e trabalhou por muito tempo. Em seu raciocínio, claramente influenciado por esta temporada na terra do Tio Sam, cabe ao mercado a responsabilidade pelo crescimento e melhora na condição de vida dos brasileiros. Ao governo que serve ficam a responsabilidade de manter a inflação baixa e a promessa de manter o orçamento público com um superávit fiscal primário suficiente para garantir a tranqüilidade dos detentores de títulos públicos emitidos pelo governo.
Nos próximos meses vamos testar a viabilidade política de um governo com o DNA do PT e que foi eleito prometendo um espetáculo de crescimento e uma nova vida para os brasileiros mais pobres e que segue todos os ensinamentos do hoje desmoralizado - e quem nos informa isto é o conservador jornal inglês “Financial Times” - Consenso de Washington. Com a aprovação de uma reforma da Previdência duríssima, estão cumpridas todas as exigências dos mercados financeiros para dar ao Brasil um certificado de bom comportamento. Só falta a volta do crescimento econômico! (Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)