Estamos mais uma vez aguardando a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Hoje, este conselho de sábios sem sabedoria vai definir a taxa de juros que deve prevalecer durante os próximos 30 dias. Esta decisão terá influência decisiva sobre a vida de todos nós, brasileiros, na medida em que influenciará a velocidade de recuperação da economia durante os próximos meses. Como sempre acontece às vésperas da reunião do Copom, os analistas estão divididos; de um lado, os que defendem uma redução mais agressiva dos juros; do outro os que acreditam que a nossa autoridade monetária deva manter uma postura mais conservadora. Na prática, isto representa uma divisão entre os economistas que estão preocupados com a recessão atual e consideram a inflação sobre controle e aqueles que acreditam que a responsabilidade do Banco Central se restringe a manter a inflação dentro das metas estabelecidas para este ano.
Esta mesma divisão existe na maioria dos países de economias mais avançadas. A relação entre inflação e crescimento é um dos pontos mais conflituosos no debate econômico contemporâneo. Nos países de língua inglesa, estes dois grupos são chamados de pombas e águias; no Brasil, poderíamos usar a mesma imagem da pomba, para caracterizar os desenvolvimentistas e o carcará nordestino, para simbolizar os duros de coração de pedra.
Para mim, esta divisão não deveria existir. A responsabilidade primeira do economista é definir uma política econômica que promova o crescimento de maneira sustentada e por um longo prazo de tempo. Somente nestas condições é possível melhorar o nível de vida da população e em países com grande injustiça social aproximar os ricos dos mais pobres. O controle da inflação é parte importante do quadro econômico que leva a economia de um país a ter condições de crescer. Neste ponto, carcarás e pombas sensatas estão de acordo.
A divisão aparece quando se procura determinar o nível de inflação adequado a cada economia. Perseguir, em uma economia ainda instável como a brasileira, um nível de inflação que vigora nos países mais desenvolvidos é um erro muito sério. Enquanto tivermos uma vulnerabilidade externa muito acentuada, precisamos nos contentar com metas inflacionárias mais modestas. No caso brasileiro de hoje, acredito que algo parecido como 6% ao ano para o crescimento de preços, quando se excluem os componentes mais voláteis da cesta de consumo – como alimentos e energia –, é bastante razoável. As previsões de inflação para os próximos meses apontam para este número.
Mas o Banco Central do governo Lula acha isto um sinal de fraqueza e procura atingir números mais ambiciosos. Na busca deste sonho impossível, impõe-se à economia uma taxa de juros exagerada que mantém a economia abaixo de sua taxa potencial de crescimento e agrava a questão da dívida pública do governo federal.
Assistiremos, na próxima semana, mais um capítulo desta novela. Espero que os debates, muitas vezes acalorados, sobre esta questão tenham trazido um pouco de bom senso aos membros do Copom e que a redução das taxas de juros seja mais profunda do que 1,5%, esperado pelos mercados financeiros.
O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES.