Cultura

Artigo: Bauru


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Em torno de 1870, um caboclinho mineiro, magro, com pernas compridas, chamado Valentim, veio para o Sertão do Bahuru em companhia de seus tios. Por vencer rapidamente as distâncias entre um sítio e outro, quando levava comida para seus parentes que trabalhavam na roça, recebeu o apelido de Asinha. No trajeto entre o Sítio da Grama, no qual morava, e outros para onde seguia, nunca viu caigangue na borda das matas rente à trilha percorrida, mas gostaria de encontrá-lo, ir à sua aldeia e brincar com seus filhos.

Asinha casou e com sua filha Emerenciana, esta criança ainda, soltou fogos com alegria, quando, no dia 8 de janeiro de 1896, observou um carro de boi, dirigido por Victor Manuel Batista, carregado de móveis da Câmara de Fortaleza, acompanhado por um séquito de cavaleiros, adentrar no povoado nascente, recebendo vivas da população.

Em 1905, na adolescência, Emerenciana assistiu a chegada do trem da Sorocabana e, morando nas imediações do ribeirão da Grama, acompanhou o início das obras da Noroeste. Mais tarde casaria com um ferroviário, filho de italianos que vieram trabalhar nos cafezais da Fazenda Val de Palmas. Mas nem só alegrias ela testemunhou. Adulta, em outubro de 1910, com outras 500 pessoas foi ao enterro do Coronel Azarias Leite, chefe político assassinado quando vinha de sua fazenda para inaugurar o Banco Rural, de sua propriedade. E, com o primeiro neto no colo, em novembro de 1927, esteve no velório de Rodrigues de Abreu, o poeta da “Sala dos Passos Perdidos”.

O tronco familiar iniciado com Valentim alastrou-se pelo povoado e região. Seus descendentes, como de outras famílias que residiam em Bauru, ocuparam sítios e profissões, casaram com filhos e filhas, netos e netas de espanhóis, de portugueses, de sírios-libaneses, de angolanos e moçambicanos. Foi essa sadia miscigenação que tornou Bauru uma cidade sem tradição, onde todos têm oportunidades.

Netos e sobrinhos de Valentim morreram na Revolução de 1932 e nos campos da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns de seus parentes haviam perecido anteriormente, nos confrontos com índios e os posseiros. Outros se acidentaram na construção das estradas de ferro Alguns, vestindo farda, tombaram em confronto com bandidos.

O tempo passou, a cidade transformou-se num dos mais importantes entroncamentos ferroviários do País (hoje seus trilhos estão agonizantes). Cidade Espanto, foco de itinerantes, alguns indo e vindo a negócios... Outros nela criando raízes, a urbe tornou-se importante empório comercial da região. Os dias e horas correram e ela recebeu novos sopros de progresso: região administrativa, indústrias, escolas superiores.

Nestas, inquestionavelmente devem ter descendentes de Asinha: a USC, a ITE, a FEB (depois transformada no maior campus da UNESP), a FOB e o Centrinho, a UNIP, as FIB e o IESB, atraindo para a cidade gente bonita, gente alegre de muitos rincões do Brasil e do Exterior. Essas e outras instituições de ensino melhoraram o perfil da cidade. E o etéreo mundo da comunicação, está presente e atuante na cidade, com rádios, estúdios de tevês, jornais e revistas, documentando e divulgando tudo para todos.

E se Asinha hoje voltasse? Veria outra realidade, sentiria uma cidade castigada pelo desemprego, envolta em latente violência. E notaria que as matas do serrado deram lugar para pastos e plantações, para novas habitações. Veria os rios onde nadou, antes profundos, assoreados e poluídos. Enfim, foram mais de cem anos de progresso!

Irineu Azevedo Bastos é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado escritório de Arte.

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