Bairros

Criatividade espanta crise

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Em meio ao cinza dos problemas sociais, surge o colorido da expressão e da inventividade. Mutantes e cheias de idéias, as pessoas resgatam conceitos e criam novas funções para as coisas e para si mesmas, com o objetivo de sobreviver em meio ao caos financeiro que as atinge.

Bauru é uma cidade fértil em termos de criatividade. Andando pelos bairros é possível descobrir até onde vai a imaginação das pessoas e listar descobertas interessantes, que podem ganhar incentivos e se transformar em padrão de desenvolvimento para outros moradores.

Para a secretária municipal do Bem-Estar Social, Darlene Martin Tendolo, quanto mais dificuldades se tem, mais criativo se fica. “Isso é muito importante, pois dá esperança para as pessoas e as ajuda a ter perspectiva com relação à vida”, salienta.

É assim quando o emprego acaba e o trabalhador precisa encontrar um novo meio de garantir o sustento da família.

Há pessoas que mudam radicalmente de profissão, descobrindo novas habilidades e colocando em prática todo o seu potencial de criação.

É o caso de Lúcia Martins da Silva, 33 anos. Depois de trabalhar por quatro anos em uma rede de supermercados em Bauru, ela perdeu o emprego e terminou o casamento.

Com três filhos pequenos para criar (de 2, 9 e 12 anos), ela decidiu aprender a utilizar as mãos e a imaginação para conseguir o sustento da casa. “O meu ex-marido está desempregado e eu tenho que me virar para cuidar das crianças”, salienta.

Há dois anos, ela passou a freqüentar o Projeto Girassol, uma entidade ligada ao Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), no Núcleo Fortunato Rocha Lima.

Lá, Lúcia fez vários cursos, como o de cabeleireiro, manicure, pedicure e artesanato. Hoje, ela cuida das mãos e dos pés de algumas clientes e aproveita para vender os sabonetes e biscuit que produz. “Não dá para ganhar muito, porque me falta dinheiro para comprar o material. Mas já é uma grande ajuda”, destaca.

Darlene conta que a vontade de superar a crise e buscar novas formas de sobrevivência em meio ao caos é uma questão pessoal, mas que deve ser incentivada pelo poder público. “As pessoas têm de alimentar a esperança e ir em busca de soluções que possam amenizar as suas dificuldades”, ressalta a secretária.

Auto-estima

Quando se está numa situação de extrema carência, as pessoas podem seguir dois caminhos: ficar abatidas, contando com a ajuda de terceiros; ou erguer a cabeça e procurar alternativas para mudar o destino.

Para a professora da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Giselli Tamarozzi Lima, não é fácil enfrentar nenhuma das duas situações. “Quem fica abatida diante das situações, na maioria das vezes, não o faz porque quer. É uma questão de reação pessoal diante da crise”, explica.

Segundo ela, há quem critique a falta de iniciativas de algumas famílias, que acabam vivendo apenas do assistencialismo e não batalham para conseguir um novo caminho. “Mas as pessoas não costumam agir assim por vontade própria. Elas precisam de incentivo para resgatar a auto-estima”, destaca.

Por outro lado, a carência extrema de recursos pode despertar em alguns cidadãos a sua criatividade, dando o “start” para a busca de alternativas para a sobrevivência.

Giselli aposta no trabalho das entidades assistenciais na recuperação desse espírito empreendedor das pessoas. “É muito importante essa orientação que é dada por várias instituições, estimulando a população a buscar seus próprios meios de sobrevivência”, destaca a professora.

Ela ressalta que, muitas vezes, as pessoas têm idéias, mas não sabem como colocar em prática, nem como ganhar dinheiro com elas. “As entidades podem dar dicas do tipo de atividade ou produto que está em alta no mercado, como obter lucro com elas e onde comercializar”, diz.

Mil utilidades

A reciclagem está na moda, mas muitas pessoas não sabem o que isso significa. Elas reaproveitam embalagens sem perceber a grande ajuda que estão dando para o meio ambiente, ao dar uma nova função para materiais descartáveis.

A campeã de reutilização é a garrafa plástica de refrigerante, também chamada de pet. Ela oferece possibilidades infinitas, desde o uso como recipiente para bebida até como estrutura para muro e estufa.

Há pouco mais de um mês, o Jornal da Cidade publicou uma matéria na qual mostrava até onde foi a criatividade de um morador do Núcleo Fortunato Rocha Lima.

O comerciante Arlindo Aparecido do Amaral utilizou 2.100 garrafas pets para construir a parede de 7,2 metros de comprimento, por 3,4 de altura. Com a empreitada, ele economizou R$ 520,00, uma quantia considerável para a sua condição financeira.

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