Cultura

Artigo: O número 1

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

A mistura que envolve o show de Nando Reis é tão avassaladora que não há como resistir ou não sair satisfeito após a apresentação. Quem esteve na última sexta-feira no Sesc conferindo a abertura da Mostra Latinidades da entidade sabe do que estou falando.

Nando entrou no palco após o show de cerca de uma hora e meia do argentino Fito Paez que - talvez por falta de intimidade da platéia com sua obra - não empolgou tanto quanto poderia. Começou cantando “A Letra A”, título do disco que marca o início de sua carreira pós-Titãs, e, nas duas horas seguintes, não deixou que o público, que quase lotava a quadra do clube, parasse ou deixasse de interagir, cantando, “dançando” ou batendo palmas. O que mais se poderia esperar de um show?

É claro que, com 20 anos de carreira, ele sabe como se portar em qualquer palco e para qualquer público. Na realidade, a carreira de Nando Reis começa com o pé direito porque não há como ser de outra maneira.

Durante o show, por exemplo, entre uma música e outra do novo disco, ele cantou composições suas que ficaram famosas com Cássia Eller e alguns sucessos dos Titãs, além de revisitar hits seus de outros discos, principalmente “Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro”, de 2000. Não há quem fique infeliz com uma junção dessas.

Quem estava presente mas não totalmente familiarizado com o seu repertório ainda tinha aquela sensação de “ficha caída” na hora, como quem diz: “nossa, essa música é dele?”. É o fascínio que sua obra provoca quando se percebe que ela é bem maior e presente do que se imagina.

Acrescente-se a isso o fato de que “A Letra A”, se não for o seu melhor CD, dividindo o título com “Para Quando...”, é pelo menos um trabalho inspiradíssimo e que marca uma grande evolução sua como cantor. E como ele disse, em entrevista publicada pelo JC no dia do show, sua intimidade com os músicos agora é muito maior, o que é possível perceber na sonoridade do CD “com cara de Nando” e no show, onde cada um parece se entender só com o olhar.

Mesmo quando decidiu tocar músicas que não estavam previstas no programa inicial, tudo parecia ensaiado, perfeito, mas não robótico. Ao contrário, a sensação é de que todo mundo estava se divertindo no palco, o que dá ainda mais prazer de estar na platéia.

Dentro do mesmo time

Agora é só uma questão de tempo até que o grande público se acostume com o fato de que Nando Reis é uma entidade solo (apesar de ser inevitável que alguém ainda vá se referir a ele como um ex-Titã). Isso deve acontecer à medida em que seus discos forem sendo lançados e o seu nome como cantor (além de compositor) for se solidificando.

Se seus discos não tivessem uma escala progressiva de qualidade talvez ele até corresse o risco de ficar obscurecido por suas composições, cujo conjunto (por seu poder de abrangência) o inclui no mesmo time de três outros grandes nomes do pop/rock brasileiro: Cazuza, Renato Russo e Herbert Vianna.

Tanto que cada vez mais seu nome é uma grife de peso. É só reparar como grupos e artistas dizem com orgulho: “a gente gravou uma do Nando Reis”. Neste momento, o cantor, compositor, músico e produtor caminha para se tornar (se já não for) a figura número um do universo pop/rock nacional. É só esperar mais um pouquinho para conferir.

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