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Pai é minoria nas visitas à Febem

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 7 min

A cada domingo, dezenas de parentes dos 72 internos da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) de Bauru cruzam o portão da unidade para passar a tarde com os adolescentes. Um levantamento recente feito pela instituição mostra, porém, que apenas 17% deles contam com a presença do pai durante esses encontros. Entre as mães, este índice é de 86%.

Um dos representantes dessa minoria é o funcionário público Sebastião (o sobrenome não será divulgado para preservar a identidade do filho menor de idade, conforme determina a lei), que faz questão de ir à Febem todas as semanas. “O meu filho fica bem melhor quando eu vou. A gente sente que há muitos adolescentes lá dentro que são carentes”, afirma.

O filho dele se enquadra em uma categoria ainda mais restrita, a dos adolescentes que recebem visitas somente do pai e que representam apenas 2,6% do total. “Eu sou separado e a mãe dele não vai, mas eu sempre estou presente”, diz Sebastião.

A assistente social Maria Aparecida Mioralli, que convive diariamente com os internos da unidade, afirma que eles chegam a reclamar da ausência paterna. “Alguns adolescentes comentam a falta que sentem do pai. Muitos falam que o pai não dá importância para eles”, afirma.

Ela lembra, porém, que muitas vezes a resistência parte do próprio menor. “Já aconteceu do pai chegar à portaria e o adolescente se recusar a vê-lo. Nesses casos, a gente tenta conversar com o interno e mostrar que é importante manter o vínculo entre os dois. Ele vai refletindo até conseguirmos reverter isso, pois o nosso objetivo é fazer com que a família dê apoio a ele”, afirma.

Para a assistente social, também é preciso levar em consideração que grande parte dos adolescentes já não mantinha contato com o pai antes mesmo da internação. “Muitos faleceram, ou não reconheceram a paternidade. Outros se separaram da esposa e perderam contato. Os que não aceitam ou não querem ver o filho aqui são minoria”, diz.

A psicóloga Gilda Alves, que também trabalha na unidade de Bauru, concorda. “Dentro do que a gente observa, essa situação já parte da formação das famílias, que são baseadas na mãe. A responsabilidade maior acaba sendo dela e é mais difícil ela se desligar do filho”, opina.

Parceria

Segundo Gilda, nos casos em que o adolescente recebe a visita do pai, acaba sendo estabelecida uma parceria com a instituição. “A presença paterna é fundamental. Se só a gente estivesse orientando e buscando a transformação deles (internos), isso seria algo incompleto. O ideal é que a família trabalhe junto com a gente”, afirma.

Gilda acredita que a principal vantagem do contato com os parentes é a possibilidade de se resgatar valores que foram perdidos ao longo dos anos. “Na adolescência, os menores acabam escapando um pouco e se direcionam mais para os grupos de amigos. Com a prioridade que nós damos à família, ela vai transmitir conceitos morais, éticos, o que é certo ou errado”, declara.

A diretora da unidade, Maria Aparecida Cavalheiro Bien, conta que tem procurado implantar medidas que visam aproximar pais e filhos. “Desde as férias, começamos a convidar o pai ou a mãe para passar um dia da semana conosco. O visitante acompanha o adolescente em todas as tarefas e nós proporcionamos o almoço e o jantar”, diz.

Ela afirma que a iniciativa tem surtido efeitos positivos. “Nós implantamos em caráter experimental, mas como deu certo e as mães demonstram interesse em vir, estendemos o benefício até agora. Alguns pais também vieram, mas são minoria. Infelizmente, há muitos parentes que não vêm porque trabalham e não podem faltar, ou têm filhos pequenos e não podem deixá-los sozinhos”, revela.

Uma das mães que teve a experiência de passar um dia na Febem e que pediu para não ser identificada aprovou a medida. “Eu conheci todos os lugares em que eles ficam, os cursos que eles fazem e fiquei com o meu filho o tempo todo. Foi um dia especial, porque ele se sentiu mais seguro”, conta.

A diretora da unidade acredita que o fator financeiro também contribui para à unidade. “Considero o trabalho com a família o mais importante. Só que existe uma dificuldade grande porque, para motivá-la a vir, a gente teria também que dar condições a ela, oferecendo o passe de ônibus, e isso é complicado”, diz.

A assistente social Maria Aparecida Mioralli conta que, quando os internos não recebem os parentes aos domingos, é feito um contato telefônico entre eles e a família. “Mas eu vejo que pessoalmente é bem mais favorável. A visita é fundamental no processo socioeducativo deles. Quando isso não acontece, eles ficam aniosos durante a semana”, opina.

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‘Meu pai chorou bastante’

O adolescente D.S.O., 17 anos, está há cerca de um mês na unidade. Vestindo camiseta e bermuda, uniforme padrão da instituição, ele conversou com a reportagem do Jornal da Cidade na última sexta-feira e contou como é a relação dele com a família. “Meu pai, minha mãe e minha irmã vêm me visitar sempre. É importante recebê-los, pois eles me dão uma força”, diz.

Ele conta que o primeiro encontro, porém, foi marcado pela tristeza. “Meu pai chorou bastante. Quando eu passei 27 dias no NAI (Núcleo de Atendimento Integrado), antes de vir para cá, ele falou que não poderia me visitar porque não tinha vontade de me ver preso, mas quando soube que eu viria para a Febem, amoleceu”, relembra.

Segundo o adolescente, a possibilidade de ver o filho internado na Febem causou preocupação aos pais. “Eles ficaram apavorados e com medo de que me acontecesse alguma coisa. Depois da primeira visita, se acalmaram um pouco, pois viram que a relidade aqui era diferente do que eles imaginavam”, afirma.

O menor, que foi internado após cometer um furto, acredita que a vida dele na Febem seria pior caso não recebesse visitas. “Seria mais complicado. Quando eles vêm, a gente sempre conversa e distrai um pouco a cabeça. Você sabendo que a mãe de todo mundo vai vir e você vai ficar só, fica meio bravo”, opina.

D.S.O. diz que a família dele também acaba servindo de companhia para outros adolescentes que ficam sozinhos aos domingos. “Eu falo para eles que, se quiserem sair junto com a minha visita, podem. A gente fica lá fora, conversa e eles se relacionam também. Os que vão, ficam contentes, pelo menos naquele momento, mas depois que retornam para o quarto ficam pensando que a mãe não pode vir”, revela.

Solidão

O adolescente E.E.S., 17 anos, é um exemplo de interno que não recebe visitas. Desde que chegou à unidade, em novembro do ano passado, ele se encontrou com a mãe apenas três vezes. “Ela não vem mais porque mora muito longe, mas eu sempre mando cartas”, afirma.

O menor, cujo pai faleceu há cinco anos, conta que ela vive em Juquiá, na região Sul do Estado. Ele está internado em Bauru porque cometeu um homicídio em Botucatu. “O que mais sinto falta é da minha mãe e do meu pai. Quando ele era vivo, eu morava junto com ele”, diz.

Apesar da saudade, ele acredita que a distância também traz vantagens. “Se houver qualquer tumulto, já vai passar na televisão. Se ela estivesse mais perto, iria ficar mais preocupada”, opina.

O menor também revela que tem 23 irmãos. “São 13 por parte de pai e mãe e outros dez por parte de pai”, diz. Para suprir a falta dos parentes, E.E.S. passa o tempo fazendo atividades artesanais. Durante a entrevista, ele mostrou um guardanapo que havia bordado nos últimos dias.

O bom comportamento que o adolescente demonstrou nos últimos meses fez com que ele tivesse a autorização para visitar a família no Dia dos Pais, benefício que outros internos também receberam. Antes que ele conversasse com a reportagem, porém, a diretora da unidade não perdeu a oportunidade de repreendê-lo por ter usado um gorro à noite, o que é proibido pelas normas internas.

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