O Ipea, órgão do Ministério do Planejamento do governo federal, reviu mais uma vez para baixo sua estimativa para o crescimento econômico deste primeiro ano do governo Lula. Agora seus técnicos trabalham com uma estimativa de 0,5% para o ano de 2003. Devo lembrar a meus leitores que a previsão inicial para o aumento do PIB em 2003, feita ainda no início do ano, era de 2,5%. Passados hoje sete meses desta data, somos informados de que o número final deve ser de apenas 20% do previsto inicialmente. Isto se não houver uma nova revisão para baixo quando os números referentes ao mês de agosto forem incorporados nos cálculos do Ipea.
Os mais otimistas com a política econômica do governo, principalmente depois que o Copom reduziu as taxas de juros em 250 pontos em sua última reunião, esperavam que os números de julho já refletissem o início da recuperação da atividade econômica. Os mais realistas, ou menos militantes com o governo do PT, já sabiam que os primeiros sinais de recuperação só apareceriam no último trimestre do ano. Mas todos foram surpreendidos pela fragilidade da atividade econômica, principalmente no setor industrial, que aparece nos números divulgados pelo IBGE, nesta última sexta-feira. Eles apenas confirmam o que as estatísticas referentes às importações em agosto já mostravam aos analistas mais diligentes e cuidadosos.
Nos primeiros sete meses do ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, a indústria apresentou um crescimento negativo de 0,3%. No setor de bens duráveis a queda foi de 4,8% e de 4,0% no setor de bens não duráveis. No crítico setor de bens de capital, que indica o nível de investimentos em nossa economia, a redução foi de 2,6%. Outra forma de medir a intensidade da recessão que vivemos hoje é analisar o grau de utilização de nosso parque produtivo. Em julho passado, nossa indústria em geral operou com uma ociosidade de 19%, número que chegou a quase 30% no caso da indústria de bens de capital.
Estes indicadores acrescidos de mais algumas informações já disponíveis sobre o mês de agosto, nos permitem trabalhar com a hipótese de que teremos, no terceiro trimestre, mais um período de crescimento negativo ou próximo de zero. Com isto, as apostas mais otimistas ficam restritas ao início da recuperação da atividade produtiva apenas no último trimestre do ano. Destas informações, que o analista dispõem hoje sobre a verdadeira situação de nossa economia, a que mais preocupa são as relativas ao nível de investimento na indústria e construção civil. Com raras exceções, como o setor de petróleo, estamos vivendo um momento em que as decisões de investimento em setores importantes estão sendo postergadas. E todo o economista sabe que o crescimento mais intenso de uma economia, como a brasileira, só ocorre quando as empresas estão realizando aumentos em sua capacidade produtiva. Não é o que ocorre atualmente! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)