Além de quebrar a repetição das casas populares de núcleos habitacionais, que são entregues umas idênticas às outras, reformas podem conferir identidade e destaque às residências.
Andando pelos núcleos de Bauru é possível encontrar esses imóveis sem dificuldade. Algumas famílias imprimem suas “caras” à fachada da casa, diferenciando-as das demais.
A casa de Cláudio da Silva, que mora no Núcleo Mary Dota, é uma delas. Ele resolveu investir e fez uma reforma completa, que incluiu construção de edícula e mudanças no acabamento.
Hoje em dia, quem passa em frente à casa de Cláudio não diria que antigamente ela era igual às demais do quarteirão. “Investimos na casa porque gostamos de morar no bairro. Estamos sossegados aqui. É bom porque tem supermercado, padaria, açougue. É tudo pertinho”, explica Cláudio.
A casa de Márcia Martins, também no Núcleo Mary Dota, é outra que parece ter passado por uma cirurgia plástica. A dona de casa vive no bairro há cinco anos e gosta do local.
“Como é o único patrimônio que temos, temos que investir.
O bairro é bom, cômodo, e o quarteirão é tranqüilo. O único problema é que falta área de lazer para as crianças”, conta.
Entre mudar para uma casa no Jardim Aeroporto e reformar sua casa no Núcleo Mary Dota, Nivaldo Azevedo optou pela segunda alternativa. Ele não pretende sair do bairro, que considera o local ideal para morar.
Nem a família, que mora no Jardim Bela Vista, é motivo suficientemente forte para fazer o morador mudar de idéia.
Na Vila Dutra, uma das casas que se destaca é a de Acyr Rehder e Denise Rosa dos Santos. Eles escolheram o bairro por ficar próximo à chácara do casal, onde passam boa parte do tempo.
Antes de mudar para a vila, há um ano e meio, fizeram uma reforma no imóvel. “Todo mundo sabe que a casa é melhorzinha que as outras”, diz Acyr.
As diferenças de padrão não prejudicam o relacionamento com a vizinhança. “O que incomoda no bairro é coisa normal de casa de lugar pobre. São casas quase germinadas em que corre o barulho de uma a outra”, expõe.
Marta Vasconcelos Lovison, outra moradora da Vila Dutra, também fez diversas modificações em sua casa: construiu uma nova sala e uma edícula, aumentou a cozinha, trocou todas as janelas e portas.
“Preferimos, na época, morar numa casa melhor a morar em uma casa mais simples num bairro nobre”, justifica.
Hoje, Marta pensa em mudar para o Jardim América ou para o Jardim Estoril porque a casa é distante do trabalho do marido e de outros locais que a família freqüenta durante a semana.
A casa do aposentado Jesuíno José Luiz, no Núcleo Bauru 16, é tão diferente das demais que gera desconfiança entre os vizinhos. “O pessoal fica perguntando onde eu consegui dinheiro para arrumar a casa assim”, diz.
Na época, a reforma durou cerca de dois meses. “Gastei muito com a obra. Eu mexi na casa toda. Adoro minha casa”, reforça Jesuíno.
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Problemas
A diferença de poder aquisitivo entre vizinhos é avaliada como um fato corriqueiro para muitas pessoas, mas pode representar um problema para outras.
Aparecida Barbosa Braga, por exemplo, mora há 25 anos no Jardim Vânia Maria. Mesmo após tanto tempo, ela não se sente à vontade com os vizinhos, que fazem comentários a respeito da grandiosidade de sua casa.
“Eles perguntam se a gente já encontrou o Conde Drácula à noite pelos corredores da casa; falam que dá impressão que minha casa é um labirinto; que teve gente que entrou e não conseguiu sair; que a família é muito pequena para uma casa tão grande”, conta.
Aparecida tem vontade de mudar para outro bairro. O marido, entretanto, que nasceu no Vânia Maria, gosta do local e quer estar próximo aos parentes.
Ela reclama das distâncias grandes que tem de percorrer diariamente para qualquer atividade - ir ao supermercado, ao médico, à faculdade do filho. “É complicado. Dá muito trabalho. Nada está aqui. Por mim, eu já teria mudado há muito tempo”, salienta.
Outro problema é que, como a casa de Aparecida chama atenção na avenida em que mora, ela já foi furtada diversas vezes. “Eu gostaria de morar em um condomínio. Outro motivo porque não mudamos é que temos várias propriedades no bairro e aqui fica mais fácil tomar conta”, justifica.
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Seplan
De acordo com a titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Maria Helena Rigitano, elementos como infra-estrutura, localização e tamanho dos lotes são responsáveis pelo “status” atribuído a determinados bairros.
Maria Helena explica que além de ter rede de água, esgoto, guias e sarjetas e pavimentação, é importante que o bairro tenha acesso facilitado a outros locais da cidade. “Principalmente à área central e à zona sul, onde estão localizados os bairros mais nobres”, expõe.
O tamanho do lote também é importante. A secretária explica que não é suficiente que o bairro tenha apenas boa localização. “Para construir uma casa de padrão mais elevado teria que ter vários lotes. Já se o lote original tem padrão superior a 450 metros quadrados ajuda”, diz.
Tais elementos interferem no padrão de construção dos imóveis e tornam o bairro mais procurado por pessoas de alto poder aquisitivo. “Como a procura é maior, o preço sobe. É a lei de mercado”, observa.
Maria Helena conta que, se um bairro popular recebe melhoramentos e é valorizado, a população de baixa renda pode sentir-se expulsa do local. “O aluguel e o imóvel ficam mais caros. A população de baixa renda acaba procurando um bairro mais periférico por ser mais barato. Infelizmente.”