Agudos – A Associação do Hospital de Agudos (15 quilômetros a Sudeste de Bauru) realizou no mês passado uma cirurgia inédita no município, que desafiou a equipe médica local. O desafio ocorreu não propriamente pelo procedimento rotineiro - a retirada de uma vesícula - mas sim pelo paciente envolvido, que possui uma anomalia conhecida como situs inversus, ou seja, a posição invertida das vísceras e órgãos na região do tórax e abdômen.
A raridade foi detectada no morador de Agudos Florêncio Ribeiro de Souza, 38 anos. Nele, ao contrário da anatomia habitual, a ponta do coração está voltada para o lado direito do corpo, assim como o baço; e o fígado e vesícula são encontrados do lado esquerdo, quando a posição natural é à direita e abaixo do diafragma. Há também uma inversão dos pulmões, do estômago, além do intestino grosso e delgado, levando o apêndice para o lado esquerdo.
Esta patologia, que se manifesta em apenas 0,01% da população mundial, segundo o gastrocirurgião de Agudos, Samir Salmen, foi detectada pela equipe do hospital depois que o paciente procurou os serviços médicos, queixando-se de dores abdominais do lado esquerdo.
Inicialmente, antes de descobrirem a anomalia, os médicos acreditavam que Florêncio pudesse apresentar alguma doença intestinal ou pedras no rim esquerdo. “Uma dor abdominal nesse ponto exigia uma investigação de doenças e patologias que sejam mais comuns do lado esquerdo do abdômen”, explica. Daí a surpresa ao se chegar ao diagnóstico.
Durante a investigação, o paciente foi submetido a um raio-x de tórax, que indicou o coração invertido. O fato gerou uma dúvida entre os técnicos e o corpo de médicos, o que levou à repetição do procedimento. “Nós descobrimos então que ele tinha uma dextrocardia, que já é uma raridade”, afirma.
Em seguida, o paciente foi submetido a outros exames de imagem, como ultra-sonografia. Foi então que os médicos se surpreenderam ao constatar a inversão total dos órgãos e descobriram que as dores do paciente estavam sendo provocadas por pedras na vesícula - fato que inicialmente havia sido descartado ao se considerar a posição natural do órgão, do lado direito.
“No ultra-som, buscava-se achar um rim desse lado (esquerdo) com cálculos, mas achou-se um fígado e uma vesícula”, conta.
A partir da descoberta, a equipe abraçou o desafio de estudar o caso inédito e encontrar uma tática cirúrgica para a retirada da vesícula inversa, até então desconhecida para os médicos do hospital.
Depois de estudos preliminares e levantamento bibliográfico, os cirurgiões chegaram a uma solução. Durante o procedimento, além de inverter a posição natural da equipe médica, um espelho foi posicionado ao lado da mesa de operação, permitindo uma imagem familiar, da anatomia habitual. “A intenção era que o espelho traduzisse para gente a imagem real anatômica, depois a gente dispensou o espelho e passou a operar instintivamente em posições contrárias”, conta Salmen.
Atualmente, apesar de grande parte de cirurgias de vesículas serem realizadas sem cortes através de um sistema de videolaparoscopia, a equipe preferiu recorrer ao método convencional, fazendo uma incisão mediana e explorando a cavidade do abdômen. “Nós nos sentimos inseguros diante de uma anatomia diferente”, afirma. “Por isso, a gente seguiu o caminho mais simples, que é abrir o paciente.”
A operação de retirada da vesícula durou cerca de uma hora e depois de quatro dias de recuperação Florêncio recebeu alta.
Segundo o médico, esse foi o primeiro caso de situs inversus presenciado por ele e por outros colegas de profissão. Pela raridade, a experiência da operação de Florêncio deve ser levada a congressos de medicina.
A cirurgia em Agudos foi realizada por uma equipe de seis profissionais: os gastrocirurgiões Salmen e Alberto Briani, o colo-proctologista Humberto Pimentel, o anestesista Durval Conte e as enfermeiras Célia Porcino e Isabel Cristina Nassura.
Sem sintoma
Apesar do situs inversus total, em geral, não manifestar sintomas, Salmen afirma que, para a vida do paciente, é de extrema importância diagnosticar a anomalia. “Imagine se ele tem uma crise de apendicite em uma cidade sem recursos e o médico não tem informação nenhuma. Ele pode morrer, porque o médico não vai associar à apêndice, sendo do lado direito”, afirma.
Por medida de precaução, segundo Salmen, Florêncio carrega atualmente uma carta médica, com orientações sobre sua particularidade anatômica.
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Características da anomalia
Segundo informações do médico Samir Salmen, o situs inversus é considerado uma anomalia congênita, ou seja, uma anormalidade transmitida geneticamente, que resulta em erros de formação durante o desenvolvimento do embrião ou feto. “Algum cromossomo deu uma informação errada no útero da mãe. Quando embrião, essa anomalia começou a apontar o apex do coração para o lado contrário e os outros órgãos também. E as células dele aprenderam que era para seguir aquele rumo. É como a construção de uma casa, nesse caso, o cara errou o mapa”, brinca o médico.
O situs inversus pode manifestar-se de forma parcial ou total. No primeiro caso, trata-se de uma situação também rara, caracterizada, em geral, pela posição anormal apenas do coração, à direita do tórax (dextrocardia).
O segundo caso, explica o médico, determina a disposição de todos os órgãos torácicos e abdominais internos como uma “imagem em espelho” da anatomia habitual.
Quando a inversão é total, os pacientes dificilmente manifestam qualquer tipo de sintomas devido à anomalia, e levam uma vida normal, como é o caso de Florêncio.
De acordo com Salmen, a doença, em geral, é descoberta somente quando o paciente faz algum tipo de exame de imagem. “Ele só achará essa anomalia se ele desenvolver ao longo da vida alguma doença em algum órgão. O que foi exatamente o que aconteceu no caso do Florêncio, se ele não tivesse pedra na vesícula, ele poderia passar a vida inteira sem descobrir”, afirma.
Por outro lado, se a anomalia se manifestar apenas parcialmente, como no caso do coração invertido, as chances do paciente apresentar doença cardíaca chegam a 95%, segundo Salmen.
O médico encontra uma possível explicação para o fato. Na opinião dele, se o coração e todos os demais órgãos estiverem invertidos, a fisiologia do corpo estará naturalmente ajustada. “Agora, se só o coração estiver virado ao contrário, ele tem que compensar uma anatomia que é normal; ele se torna um corpo estranho”, afirma.
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