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Bauru não faz transplantes complexos

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 6 min

Boa parte dos pacientes de Bauru que necessitam de um transplante precisam se deslocar a outros centros. Atualmente, a cidade realiza apenas as cirurgias que envolvem a substituição de rins e córneas. O alto custo de manutenção das intervenções mais complexas, como o transplante de coração, por exemplo, é apontado como o principal fator para que o serviço não seja ampliado.

“Não há sentido você, em alguns centros regionais, querer fazer determinado tipo de transplante, porque o investimento necessário para isso seria enorme e o número de transplantes que seriam realizados seria pequeno. Uma das questões que se têm, também, é que a equipe que está trabalhando nisso tem que estar sempre se atualizando”, explica o titular da Diretoria Regional de Saúde (DIR-10), Affonso Viviani Júnior.

Ele afirma que o objetivo da Secretaria de Estado da Saúde é aperfeiçoar cada vez mais os serviços que já existem. “É o caso dos procedimentos que são de altíssima complexidade e requerem uma perícia técnica enorme por parte dos profissionais, o que significa investimentos de grande natureza”, diz.

Viviani Júnior afirma que essa restrição não impede, porém, que se pense na criação de novos serviços para a cidade. Uma das propostas, segundo ele, é a implantação dos transplantes de pele e ossos no Hospital Estadual. “Isso ainda é um projeto que está no nascedouro. A tendência é que, com o tempo, a gente esteja tentando trazer para a nossa região essa área”, revela.

A Associação Hospitalar de Bauru (AHB) tem planos mais concretos. “O que nós estamos programando, para o ano que vem, é o transplante de medula no Hospital Manoel de Abreu, através do setor de oncologia que estamos instalando. Já temos, inclusive, o credenciamento e os técnicos conosco. Só falta preparar o local”, afirma o administrador da instituição, José Cardoso Neto.

A AHB já é a responsável, em Bauru, pelos transplantes de rins e córneas, feitos através do Sistema Único de Saúde (SUS).

Fila

A nefrologista da unidade de hemdodiálise da AHB, Maria Regina Trotta Pinheiro, revela que, atualmente, há 30 pacientes aguardando um transplante de rim em Bauru. Sete deles já possuem doador e estão na fase de exames. Os demais aguardam na fila do São Paulo Interior Transplante (Spit), que fica em Ribeirão Preto e centraliza o cadastro dos receptores das cidades do Interior.

“Quando aparece o rim, o Spit compara o sangue do cadáver que está doando com o dos pacientes que estão inscritos. Nesse período, o rim pode ficar até 48 horas no gelo. A prioridade da fila é compatibilidade”, explica Maria Regina.

Ela afirma que, mesmo nos casos em que o paciente tem doador, são necessários vários procedimentos. “Vamos estudá-lo, ver se ele tem a compatibilidade sanguínea, se não tem nenhuma doença que contra indique a doação, se é uma pessoa rígida, capaz de doar e também o encaminhamos para fazer o teste de HLA (Antígeno Leococitário Humano)”, explica.

A chefe responsável pelo laboratório de imunogenética do Instituto Lauro de Souza Lima, local onde o teste de HLA é realizado, Elaine Valim Camarinha Marcos, conta como ele funciona. “É feita uma coleta de sangue do receptor do órgão e do provável doador para vermos qual é a semelhança genética entre eles. O resultado demora 48 horas”, diz.

Ela lembra que, muitas vezes, o paciente tem mais de um candidato a doador. “Nesses casos, fazemos um estudo por seleção e o exame passa para o médico, do ponto de vista genético, quem mais se assemelha com o receptor. O médico, analisando esses resultados e outros critérios clínicos, é quem seleciona o doador”, afirma.

Além do tempo exigido para que todo o processo pré-operatório seja completado, o que dura, em média, de dois a três meses, o fator psicológico pode ampliar esse período. “Todo mundo tem medo. Você leva em conta a porcentagem de casos que não dão certo. Às vezes, mesmo o rim sendo compatível, há essa probabilidade e a gente, então, fica preocupado”, conta um paciente que pediu para não ser identificado.

Ele afirma que o receio, aliado a um problema de pressão alta, o impediu de ter feito o transplante até agora, mesmo já possuindo o doador. “Estou esperando o meu quadro se estabilizar para poder fazer a cirurgia, porque a gente corre muito risco durante o transplante”, diz.

Já para quem está na fila aguardando um doador, essa espera se transforma em um problema a mais. É o caso de Paulo Jupi de Jesus, 22 anos, que chegou a fazer um transplante no início do ano passado. “Foi minha mãe quem doou, mas houve rejeição. Quando fui retirar o rim, cheguei a correr risco de morte”, relembra.

Ele conta que ela era a única pessoa da família que poderia doar o órgão. “Meu pai tem pressão alta e minha irmã é muito nova”, explica.

Enquanto aguarda por um rim, Jesus enfrenta uma desgastante rotina, que inclui três viagens semanais de Presidente Alves, onde mora, até a unidade de hemodiálise da AHB, em Bauru. “Acordo às 4h da manhã e só chego em casa às 14h”, conta.

Olhos

O oftalmologista Jorge Estefano Germano revela que os pacientes de Bauru que aguardam um transplante de córnea também são cadastrados no São Paulo Interior Transplante (Spit). “A demora, em média, é de cerca de sete meses. De todos os transplantes, talvez seja o que esteja funcionando melhor, apesar do índice de doação de córneas ainda ser bem baixo”, diz.

Ele conta que, diferente do que ocorre com os pacientes renais, que são centralizados pela unidade de hemodiálise da AHB, no caso das córneas cada médico cadastrado tem sua própria lista. “Você tendo um paciente, o inscreve no Spit. Quando há um óbito, eles são informados, pegam a lista e o médico é chamado”, revela.

Germano calcula que tenha cerca de 15 pacientes cadastrados aguardando um transplante e conta que nem sempre o primeiro da fila é o primeiro a receber a córnea doada. “Às vezes, aparece uma de 60 anos e o paciente tem 30 anos”, explica.

A córnea é uma lente transparente e regular. “Qualquer doença que afete um desses dois fatores de maneira irreversível, pode indicar a troca e você substitui a lente embassada por uma outra. A cirugia leva de uma a duas horas”, explica o oftalmologista.

Segundo ele, a recuperação completa pode levar mais de um ano. “Numa fase inicial, a preocupação é sempre o ato cirúrgico em si, com uma possível complicação de rejeição. Isso demora um período de três a seis meses. Depois, se preocupa mais com a retirada de pontos e a melhoria da visão, que varia de três meses a um ano”, declara Germano.

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