As grandes questões do nosso mundo, neste início de século, talvez possam ser sintetizadas nos quatro eixos seguintes: a paz, diante da séria ameaça de uma guerra de religiões que paira sobre nós; a globalização da economia e a necessidade de regulamentá-la com normas éticas e jurídicas; o desequilíbrio crescente - e intolerante - entre o mundo desenvolvido e o mundo da pobreza e da fome, que foi agravando-se progressivamente; os atentados aos quais está continuamente sujeito, ao que parece sem remédio, nosso planeta.
Tudo o mais, a meu ver, deriva destas quatro questões fundamentais, cuja resolução, ainda não obtida, estaria ao alcance da humanidade e da ciência se houvesse vontade política: o agravamento da violência nas sociedades pós-modernas, a criminalidade internacional organizada e impune, o desenfreado economicismo imperante, sem regras nem valores, o aumento do narcotráfico e o consumo de drogas, o recrudescimento de certas enfermidades em outro tempo erradicadas, bem como a incapacidade de enfrentar e reduzir epidemias como a aids, os obstáculos que impedem o acesso de 2 bilhões de seres humanos ao conhecimento mais elementar, o drástico aumento do fanatismo religioso tanto islâmico quanto hebraico ou hindu, até nos lugares menos suspeitos, o terrorismo global, esse novo flagelo que hoje nos ameaça a todos, em suma, tudo está estreitamente inter-relacionado e a solução em grande parte depende, repito, da resposta às quatro questões às quais me referi inicialmente.
É quase lugar comum afirmar que se impõe uma nova ordem internacional, pois globais são todos os grandes desafios que nos aparecem. Mas como lutar por essa nova ordem, se a ONU - que deveria tomar a iniciativa de propô-la e impô-la - encontra-se diminuída, carente de meios e, de um tempo a esta parte, relegada a segundo plano, ou mesmo marginalizada, pela superpotência dominante, em virtude de sua atual estratégia unilateral de dominação mundial? O mundo, na difícil encruzilhada atual, necessita da palavra da UE. Seria o contrapeso necessário para compensar o unilateralismo norte-americano e para induzir a ONU a definir uma estratégia mais inteligente e eficaz na luta pela paz e contra o terrorismo, a impor regras jurídicas e éticas para a globalização, a propor um plano coerente para a erradicação da pobreza mundial.
O atoleiro a que chegou a administração Bush com a invasão e ocupação unilateral do Iraque, território que se transforma inexoravelmente em um caos absoluto. A espiral de violência em Israel e na Palestina, que afeta, irremediavelmente, a esperança de paz surgida com o mapa da paz, tudo isso, sem falar nos conflitos em outras regiões, indica que os democratas e progressistas de todo o mundo devem reagir, unidos na defesa dos grandes princípios do direito e da democracia.
Essa é a principal linha que divide o mundo hoje. Muitos ainda não compreenderam isso, mas algum dia tomarão consciência. E nessa mesma frente de combate devem incluir-se todos os norte-americanos que se opõem à administração Bush, que começam a ser muitos.
O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996.