Sapateiro, amolador, ourives, mecanógrafo, bibliotecário, alfaiate e chaveiro são apenas algumas das antigas profissões que sobrevivem aos avanços da modernidade nos bairros de Bauru.
E, se permanecem vivas, é porque são acolhidas por moradores dos diversos cantos da cidade, que continuam solicitando seus serviços.
Francisco de Souza é um deles. Há seis anos ele conserta panelas de vários tipos nas feiras livres dos bairros Parque Vista Alegre, Núcleo Nova Esperança, Jardim Bela Vista, Jardim Redentor, Vila Souto e Centro.
Ele afirma que muita gente prefere consertar as velhas panelas a trocá-las por novas. Por isso, sempre tem clientes. São, em média, dez panelas por dia. Entre elas, leiteiras, canecas, panelas de pressão. Além da limpeza geral, Francisco desamassa, troca válvulas, borrachas, pesos, cabos e pinos.
No lugar dos famosos martelinhos de madeira para desamassar, o profissional usa uma peça especial. “Eu tenho um puxador que coloca a panela no lugar. É uma peça de ferro que os torneiros fizeram para mim. Eu dei o modelo, que peguei com um senhor conhecido”, conta.
Nas feiras livres, Francisco também vende peças separadas e afirma que gosta do que faz. “Eu gosto de vender e de consertar. Não penso em parar de fazer isso. Para mim está bom”, garante.
Com Amaro Ribeiro, amolador de facas, tesouras e alicates, não é diferente. Ele deixou o trabalho de vendedor e gerente de loja há cinco anos para aprender a afiar ferramentas.
Amaro foi aprendiz de seu irmão, que exerce o ofício há 18 anos. “Não é ruim não. É uma profissão diferenciada. Eu achei a profissão da minha vida, que eu resolvi exercer com amor. É uma profissão diferente. Para mim é tudo”, enfatiza.
O ânimo do amolador não decorre da renda obtida com o trabalho. De acordo com Amaro, é apenas suficiente para o sustento da casa. O que o fascina tanto, então?
“É uma terapia. Quando eu trabalhava para empresa, para os outros, eu trabalhava sempre descontente. Aqui não. Aqui é um descanso”, revela.
“Se eu tivesse trabalhado como amolador há muitos anos atrás, hoje eu não estaria como eu estou”, acrescenta.
Amaro afirma que o trabalho não é fácil. É manual e requer concentração, boa visão e ótimo tato. O forte da oficina que ele tem na avenida Rodrigues Alves são os alicates de cutícula. Depois, vêm tesouras de costura, de cabelo e facas.
Amaro tem cerca de 1.200 clientes cadastrados e acredita que sua profissão não tende a acabar tão cedo. “Os clientes sempre retornam para solicitar outros serviços. A tendência é aumentar”, opina.
Outro ofício antigo mas que ainda é encontrado nos bairros é o do ourives. Danilo Ferraz Crivellaro trabalha no ramo há 25 anos. Aos 18 anos, tornou-se aprendiz de um idoso. Cinco anos depois, abriu seu próprio negócio. “Comecei sem saber nada. É uma profissão milenar”, ressalta.
Atualmente, já existem cursos para quem quer trabalhar no ramo. Antigamente, os conhecimentos eram transmitidos para amigos ou pessoas da família. “Você pode aprender o básico no curso. Mas tem coisas que são só com muito tempo de prática que se aprende”, afirma Danilo.
Os anos passaram-se, mas a técnica manual do ourives foi praticamente mantida. A diferença é que existem máquinas que auxiliam o profissional em determinados serviços. “Antes, era um pouco mais artesanal”, diz.
Mesmo com auxílio de máquinas, Danilo diz que não há como eliminar a parte artesanal do trabalho do ourives. “Como uma máquina vai fazer aquela específica jóia para a pessoa? Tem de ser artesanal”, frisa.